O Mapa dos Sítios Onde Não

uma história para Duarte · 9-12 anos

Para o adulto — antes e depois de lerComo preparar a leitura, três perguntas para a conversa e o que esperar nos dias seguintes. Vale a pena abrir antes da primeira leitura.

Antes de ler

Leia a história primeiro sozinho, para não ser apanhado de surpresa pela sua própria reação. Ao ler com o seu filho, não anuncie o tema («vamos ler um livro sobre bullying» fecha portas); deixe a história trabalhar. Não pergunte «isto acontece-te a ti?» na primeira leitura — a identificação nota-se no corpo: silêncios, releituras de uma página, um «que idiota, o Rodrigo». Se o seu filho revelar algo, o modelo está na página 7: primeiro «acredito em ti», depois «isto é sério e não tens de resolver sozinho», depois «foi corajoso contares». Nessa ordem. Para si, adulto, a definição que a escola usa: é bullying quando é intencional, se repete no tempo e há desequilíbrio de força — muitos contra um, ou um mais forte contra um mais vulnerável. É isso que o distingue de um conflito pontual. Evite as duas reações que mais fazem as crianças arrependerem-se de contar: desvalorizar («ignora-os») e explodir (ir à escola no dia seguinte sem combinar nada com a criança). E repare: na página 5, a mãe não percebe — a história dá-lhe permissão para não ter percebido à primeira. Não é tarde.

Três perguntas para a conversa

  • O Duarte demorou semanas a contar ao pai, e quase contou à mãe mas disse «estou só cansado». O que achas que lhe custava tanto?
  • A Leonor nunca se ria, mas também nunca dizia nada. O que achas que ela podia ter feito mais cedo — e porque é que é difícil?
  • Se desenhasses o mapa da tua escola como o Duarte, quais eram os sítios com estrela — e havia algum sítio «onde não»?

O que pode acontecer depois

É normal que a criança não diga nada na primeira leitura e volte ao tema dias depois, muitas vezes num momento lateral — no carro, ao deitar, a meio de outra coisa (a «pergunta baixinha» da página 6 acontece na vida real). Pode também testar a sua reação com revelações pequenas antes da grande: veja cada uma como um ensaio de confiança e responda com calma, porque está a ser avaliado. Se houver uma revelação, combine com a criança cada passo antes de o dar — contactar o diretor de turma por escrito, pedir reunião, pedir registo das ocorrências — e mantenha-a informada: a previsibilidade devolve-lhe controlo. Como neste caso há mensagens e capturas de ecrã a circular, guarde as provas antes de qualquer outra coisa: capturas com data e hora, sem apagar as conversas originais, e entregue cópias à escola por escrito. Se a situação persistir depois de a escola estar envolvida, pode ser sinalizada ao programa Escola Segura da PSP/GNR. Não prometa que resolve tudo depressa, não confronte diretamente a outra criança nem a família dela, e não retire o telemóvel como «proteção» (a criança lê isso como castigo por ter contado). O ritual final do caderno — «ganhaste terreno hoje?» — pode adotar tal e qual: cinco minutos ao fim do dia, e aceitar que «hoje não» também é resposta.

Sinais de que vale a pena procurar ajuda profissional

  • Recusa em ir à escola que se repete, ou queixas físicas frequentes (dores de barriga, dores de cabeça) sobretudo ao domingo à noite e nas manhãs de escola
  • Alterações mantidas de sono, apetite ou humor: isolamento crescente, irritabilidade nova, quebra acentuada nas notas ou abandono de atividades de que gostava
  • Frases de autodesvalorização repetidas («ninguém gosta de mim», «era melhor eu não existir») — neste caso procure ajuda profissional de imediato, sem esperar para ver
  • Material escolar que desaparece ou aparece danificado, dinheiro que «se perde», nódoas negras sem explicação convincente
  • A situação mantém-se ou agrava-se semanas depois de a escola ter sido envolvida — é o momento de pedir apoio ao psicólogo escolar ou a um psicólogo clínico da infância, e de formalizar a queixa por escrito junto da direção

Fontes

  • Ordem dos Psicólogos Portugueses — materiais sobre bullying e saúde psicológica em contexto escolar (Escola SaudávelMente)
  • Direção-Geral da Educação — Plano de Prevenção e Combate ao Bullying e ao Ciberbullying («Escola Sem Bullying, Escola Sem Violência»)
  • SNS 24 — Linha de Aconselhamento Psicológico
  • UNICEF Portugal — informação para famílias sobre bullying e ciberbullying
01
Ilustração da página 1
O Duarte tinha dez anos e uma mania: desenhava mapas. Mapas do caminho para a escola, com a padaria do senhor Artur assinalada com uma estrela (pão quente às oito e dez — informação vital). Mapas da aldeia dos avós, com a figueira, o poço e o sítio exato onde o gato dorme ao sol. Mapas do recreio, onde tudo tinha nome: o Campo Grande, o Muro dos Cromos, o Banco das Conversas. Os mapas serviam para uma coisa só, mas era uma coisa importante: no mapa do Duarte, o mundo era enorme. E era todo dele.
02
Ilustração da página 2
Começou numa terça-feira, com uma coisa pequena. O Rodrigo apanhou-lhe o caderno dos mapas e leu alto, com voz de gozo: «Pa-da-ri-a do se-nhor Ar-tur, pão quente às oito e dez.» A turma riu-se. O Duarte também se riu um bocadinho, porque ainda não sabia o que aquilo ia ser. Depois, a coisa pequena cresceu. Passaram a chamar-lhe GPS, e não era um nome simpático — era um nome atirado. O lugar ao lado dele passou a estar sempre «ocupado». No grupo da turma, as mensagens do Duarte ficavam sem resposta, mas apareciam noutro grupo, em print, com gargalhadas por baixo. Todos os dias um bocadinho. Semana após semana. O Duarte deixou de levar o caderno dos mapas para a escola. Depois, deixou de o abrir em casa.
03
Ilustração da página 3
O Duarte não contou a ninguém. Quanto mais aquilo doía, menos apetecia contar. Porque contar era dizer em voz alta «eu sou o miúdo de quem se goza» — e havia dias em que o Duarte quase acreditava que isso era verdade. E se a mãe fizesse aquela cara? E se o pai fosse à escola e depois tudo piorasse? E se lhe dissessem «ignora», como se ele não tivesse já tentado mil vezes? Guardou o assunto como guardava agora o caderno: no fundo da mochila, debaixo de tudo. À noite, tinha dores de barriga que não eram da barriga. Adormecia tarde, acordava cansado, e zangava-se com coisas que nem eram nada — o atacador, a torrada, o irmão a cantar no duche.
04
Ilustração da página 4
E depois havia os outros. Os que se riam sem pensar, porque um riso puxa sempre outro riso — e o Rodrigo, sem público, era só um miúdo a falar alto. Os que desviavam os olhos, à espera de que aquilo passasse. E a Leonor, que nunca se ria… mas também nunca dizia nada. O Duarte dava por si a olhar mais vezes para a Leonor do que para o Rodrigo. Sem dar por isso, o Duarte começou a desenhar um mapa novo. O mapa dos sítios onde não. Não ir ao Campo Grande. Não passar pelo Muro dos Cromos. Não pôr o dedo no ar, não falar alto, não ser visto. De semana para semana, o mundo do Duarte — que já tinha sido enorme — coube num canto do recreio, atrás da biblioteca, entre um cesto de basquete torto e a parede.
05
Ilustração da página 5
O Duarte tentou resolver aquilo sozinho, à maneira dele. Primeiro, tentou rir-se primeiro do que eles. Se o gozo fosse dele, deixava de ser deles — era o plano. Não resultou: rir com eles só lhes deu mais corda. Depois, tentou tornar-se invisível. Chegar depois, sair antes, falar baixinho. Ser invisível dava um trabalho enorme e não o tornava menos alvo. Só mais sozinho. Uma vez, um professor viu e disse: «Então, vá, deixem-se de brincadeiras.» Chamou-lhe brincadeira. A brincadeira continuou no corredor, dois minutos depois. E uma noite a mãe perguntou: «Andas tão calado… passa-se alguma coisa?» O Duarte, com o segredo mesmo à beira da boca, disse: «Estou só cansado.» A mãe acreditou. O segredo ficou onde estava: no fundo da mochila, debaixo de tudo.
06
Ilustração da página 6
No sábado de manhã, o pai e o Duarte foram buscar pão, como sempre. Café com leite, uma nata a meias, e o jogo antigo dos dois: inventar mapas dali. — Mapa do café — disse o pai. — Mesa dos velhotes das cartas, a nordeste. Zona de perigo: o cotovelo do senhor Fernandes. O Duarte riu-se. Já não se ria assim há semanas. E foi talvez por isso que a pergunta saiu, baixinho, disfarçada de coisa nenhuma: — Pai… o que é que fazias se toda a gente na tua escola tivesse decidido que tu não prestas? O pai não se riu. Não disse «que ideia a tua». Pousou a chávena devagar. — Estão a fazer-te isso? O Duarte olhou para o fundo do copo. Contar custava. Custava como saltar do muro alto da aldeia: o pior momento é aquele em que ainda se está no ar. … E contou. A terça-feira, o GPS, o lugar sempre ocupado, os prints, o canto atrás da biblioteca. Tudo, pela ordem dos mapas.
07
Ilustração da página 7
O pai ouviu até ao fim sem interromper uma única vez. Depois disse três coisas, por esta ordem: — Acredito em ti. — Isto que te estão a fazer é sério. Não é brincadeira, não é «coisas de miúdos», e não és tu que tens de resolver isto sozinho. — Ainda bem que me contaste. Isso foi corajoso. E fez uma coisa igualmente importante: não prometeu que ia ser fácil, nem rápido, nem que na segunda-feira estava tudo resolvido. Disse que ia pedir uma reunião com a diretora de turma. Disse que iam decidir juntos o que se dizia e a quem — nenhuma surpresa sem o Duarte saber primeiro. — E o Rodrigo? — perguntou o Duarte. — O Rodrigo é um problema — disse o pai. — Mas repara: a partir de hoje, já não é só teu.
08
Ilustração da página 8
Não aconteceu nenhum milagre. O Rodrigo continuou a ser o Rodrigo. Houve uma reunião na escola, e vai haver outra. A diretora de turma agora aparece no recreio à hora de almoço, como quem não quer a coisa. Alguns risos continuaram, mais baixos, à espera de ver. Estas coisas não se arrumam numa semana — os adultos estão a tratar delas, e ainda não acabaram. Mas dentro do Duarte, alguma coisa mudou de sítio. O segredo deixou de ser segredo. E a vergonha, sem escuro onde crescer, começou a ficar mais pequena. Quando alguém dizia «GPS», o Duarte às vezes ainda encolhia por dentro — isso não desaparece por magia. Mas já não pensava «a culpa é minha». Pensava: isto tem nome, o meu pai sabe, a escola sabe. E quem está errado não sou eu.
09
Ilustração da página 9
Na quarta-feira, o Duarte atravessou o recreio inteiro até ao Muro dos Cromos. Só para ver se conseguia. As pernas queriam dar meia-volta — atravessar um recreio pode ser mais difícil do que atravessar uma cidade, isto é sabido entre cartógrafos. Mas atravessou. E o mundo não caiu. A Leonor viu-o atravessar, do Banco das Conversas, sem se rir — como sempre. No dia seguinte, sentou-se ao lado dele em Ciências. — Aquilo dos prints foi uma nojice — disse ela, sem o olhar. — Eu vi e não disse nada. Devia ter dito. O Duarte não soube bem o que responder, por isso respondeu a verdade: — Pois devias. — Eu sei — disse a Leonor. E ficou. Não ficaram logo amigos para sempre; a vida não é assim tão despachada. Mas nessa noite, no mapa do recreio, o Duarte apagou um «não». E na sala de Ciências desenhou uma estrela pequenina.
10
Ilustração da página 10
Agora, ao fim do dia, há um caderno aberto em cima da mesa da cozinha, entre o Duarte e o pai. O jogo tem regras simples. Cada um desenha, ou diz, um sítio onde o dia foi seu. Pode ser minúsculo: um corredor, um dedo no ar, uma conversa à saída. Vale tudo o que se conquistou, por mais pequeno que pareça no mapa. Depois o pai pergunta, sempre com as mesmas palavras: — Ganhaste terreno hoje? Às vezes a resposta é «um bocadinho». Às vezes é «hoje não». As duas respostas servem — o caderno aceita as duas, e o pai também. Porque os mapas, e o Duarte sabe isto melhor do que ninguém, não se desenham num dia. Desenham-se um centímetro de cada vez.

A atividade desta história

O caderno do terreno ganho

Aos 9-12, a pergunta «como foi a escola?» fecha portas — parece interrogatório. O jogo do terreno abre-as: transforma o dia num mapa onde se marca o que se reconquistou, por mais pequeno que seja, e devolve à criança a noção de que o território se ganha aos bocadinhos. Para o adulto, é uma janela diária para saber como vai a guerra sem pedir relatórios.

O que é preciso

  • Um caderno qualquer — quanto menos especial, melhor
  • Uma caneta para cada um

Como se faz

  1. 01Ao fim do dia, dez minutos, na mesa da cozinha. Cada um — o adulto também — diz ou desenha um sítio onde o dia foi seu.
  2. 02Vale tudo o que se conquistou, por mais pequeno que pareça no mapa: um corredor atravessado, um dedo no ar, um lugar ocupado no refeitório.
  3. 03O adulto pergunta sempre com as mesmas palavras — «Ganhaste terreno hoje?» — e responde também sobre o dia dele. Isto não é um teste; é um jogo a dois.
  4. 04Dias sem terreno nenhum também se escrevem. «Hoje não» é informação para os dois, não é derrota — e merece a mesma voz calma.

Quando repetir

Todos os dias, à mesma hora, mesmo nos dias bons — se o caderno só abrir nos dias maus, vira tribunal. Se a criança não quiser falar, o adulto conta o terreno dele primeiro e não insiste: o caderno fica aberto em cima da mesa, e há dias em que a resposta chega à hora de deitar.

Para os dias e semanas seguintes, há mais quatro atividades deste tema no O Kit dos Meus.

↑ Reler o guia para o adulto