Dois Beijinhos, Sempre Dois

uma história para Simão · 3-5 anos

Para o adulto — antes e depois de lerComo preparar a leitura, três perguntas para a conversa e o que esperar nos dias seguintes. Vale a pena abrir antes da primeira leitura.

Antes de ler

Leia esta história apenas quando a decisão de separação for definitiva e já houver uma ideia de como vai ficar a rotina — aos 3-5 anos, a criança vai levar à letra os dias e as casas, por isso adapte em voz alta o calendário do Simão ao vosso acordo real (os vossos dias, as vossas casas). Se for possível, leiam os dois juntos pelo menos a primeira vez: ver os pais lado a lado a contar a mesma história é, em si, a mensagem mais importante. Escolha um momento calmo, sem pressa, nunca imediatamente antes da escola ou da primeira mudança de casa. Espere pedidos para reler muitas vezes, às vezes durante semanas — a repetição é a forma de as crianças desta idade digerirem o que não conseguem dizer. Pode parar em qualquer página; se a criança quiser fechar o livro na trovoada, feche: também isso é escutá-la.

Três perguntas para a conversa

  • O Simão tinha uma pergunta acesa cá dentro, como um pirilampo, e disse-a baixinho no banho. E as tuas perguntas, quais são? Diz-me uma, mesmo pequenina.
  • Qual podia ser a nossa Bolacha — o brinquedo que vai sempre contigo, para onde tu fores?
  • Queres fazer comigo os nossos dois calendários? Que desenho escolhemos para os dias da mãe e que desenho para os dias do pai?

O que pode acontecer depois

Nas semanas a seguir à separação é esperado — e não é sinal de que algo está a correr mal — que a criança faça as mesmas perguntas muitas vezes (responda sempre da mesma maneira, com as mesmas palavras simples: a repetição acalma), que recue em coisas já conquistadas (chichi na cama, falar mais abebezado, pedir mais colo), que tenha birras maiores e zanga dirigida a um dos pais ou aos dois, e que apareça a culpa mágica típica desta idade: 'se eu me portar muito bem, o pai volta'. Sempre que a culpa aparecer, repita com naturalidade que a separação foi uma decisão dos adultos e não tem nada a ver com ela. Os momentos de troca de casa são habitualmente os mais difíceis — choro ou mau comportamento à entrega não significam que o acordo está errado, significam transição. A investigação é clara: o que mais protege a criança não é evitar a separação, é a previsibilidade da rotina e o baixo conflito entre os pais à frente dela. Com rotinas estáveis, a maioria das crianças recupera o equilíbrio em semanas a poucos meses.

Sinais de que vale a pena procurar ajuda profissional

  • Regressões marcadas (sono, chichi, linguagem) que não melhoram ou pioram ao fim de 4 a 6 semanas de rotina estável.
  • A criança deixa de brincar, isola-se ou perde o interesse pelas coisas de que gostava, durante várias semanas seguidas.
  • Recusa persistente e intensa de estar com um dos pais, ou pânico nas transições entre casas que não acalma com a rotina previsível.
  • Queixas físicas frequentes (dores de barriga, de cabeça) sem causa médica, sobretudo nos dias de mudança de casa.
  • Alterações grandes e prolongadas do apetite ou do sono. Nestes casos, fale com o pediatra ou procure um psicólogo com cédula da Ordem dos Psicólogos Portugueses — pedir ajuda cedo encurta o sofrimento.

Fontes

  • Ordem dos Psicólogos Portugueses — materiais de apoio para famílias sobre separação e divórcio
  • Sociedade Portuguesa de Pediatria — recomendações para pais e cuidadores
  • Direção-Geral da Saúde — saúde mental na infância
01
Ilustração da página 1
Na casa do Simão, a manhã chega sempre pela mesma ordem. Primeiro, o cheiro das torradas. Depois, os chinelos da mãe a arrastar no corredor — chape, chape. Depois, a barba do pai a fazer cócegas na bochecha. Um beijinho da mãe. Um beijinho do pai. Dois beijinhos. Sempre dois. E a Bolacha, a cadela de peluche, a espreitar tudo lá de cima da almofada.
02
Ilustração da página 2
Um dia, depois do lanche, o pai e a mãe sentaram-se no sofá. O Simão ficou no meio. — Temos uma coisa importante para te contar — disse a mãe. O pai segurou-lhe a mão. — O pai e a mãe vão separar-se. Vamos deixar de viver juntos. Eu vou morar noutra casa, aqui perto. A mãe pousou a mão no joelho dele. — Isto não é por tua causa. Não foi nada que tu fizeste, nada que tu disseste. Nada, nada, nada.
03
Ilustração da página 3
Dentro do Simão cresceu uma trovoada. Deitou a torre de peças ao chão. Chorou um choro grande, daqueles com soluços. A trovoada era assim mesmo: barulhenta e molhada. E ficou ali o tempo que quis, porque as trovoadas demoram o tempo que demoram.
04
Ilustração da página 4
À noite, na cama, o Simão perguntou baixinho: — Pai… quando fores para a outra casa, quem me leva à escola? E a Bolacha, onde é que dorme? — Não te preocupes com isso agora — disse o pai. — Vai correr tudo bem. Deu-lhe um beijinho e apagou a luz. Mas a pergunta não se apagou. Ficou acesa no escuro, a piscar, a piscar, como um pirilampo dentro do peito.
05
Ilustração da página 5
No dia seguinte, à hora do banho, a mãe e o Simão brincaram às perguntas malucas. — As baleias usam pijama? — Nãããão! — Os caracóis têm dentes? — Têm! Milhares! Pequeninos! E então, no meio da espuma, o Simão disse baixinho: — Mãe, tenho uma pergunta a sério… O pai vai deixar de ser meu pai? A mãe parou tudo e ouviu. — Nunca. O pai é teu pai para sempre. Eu sou tua mãe para sempre. Isso não muda nem que chova para cima. — E quem me leva à escola? — Anda daí. Essa resolve-se com lápis e papel.
06
Ilustração da página 6
Nessa noite, os três fizeram dois calendários iguaizinhos: um para cada casa. Segunda, terça, quarta, quinta — sóis amarelos: dias de dormir na casa da mãe. Sexta, sábado, domingo — barcos azuis: dias de dormir na casa nova do pai. — E quem me vai buscar à escola? — Nos dias do sol, a mãe. Nos dias do barco, o pai. E se um dia for a avó, dizemos-te logo de manhã. Nunca ficas sem saber. — E a Bolacha? — A Bolacha viaja na mochila. A Bolacha vai onde tu vais.
07
Ilustração da página 7
Na sexta-feira, o Simão dormiu pela primeira vez na casa nova do pai. Era mais pequena e cheirava a tinta fresca. Mas a almofada era a dele. A Bolacha estava lá. O calendário também, pendurado na cozinha. À hora de deitar, o Simão sentiu falta do chape, chape dos chinelos no corredor. Ficou com os olhos a arder. — Podes ter saudades da mãe — disse o pai. — As saudades também cabem na casa nova. Antes de dormir, ligou à mãe. — Boa noite, mãe. — Boa noite, Simão. Amanhã falamos outra vez. Um beijinho pelo telefone. Um beijinho do pai. Dois beijinhos. Sempre dois. A trovoada ainda lá estava — mas agora era pequenina. Cabia num bolso.
08
Ilustração da página 8
Agora, todas as noites, em qualquer uma das casas, há o jogo do calendário. — Onde dormes hoje? — Aqui! — Quem te vai buscar amanhã? O Simão espreita o calendário. Sol? É a mãe. Barco? É o pai. — E quem gosta de ti? — Os dois. Sempre, sempre os dois. Depois a Bolacha entra na mochila, pronta para a próxima viagem. Porque as casas do Simão agora são duas — e nas duas há um lugar que é só dele. Um beijinho da mãe. Um beijinho do pai. Dois beijinhos. Sempre dois.

A atividade desta história

O calendário dos sóis e dos barcos

Aos 3-5 anos, a segurança vem da previsibilidade: a pergunta que aflige («quem me vai buscar?») raramente é dita em voz alta. Um calendário desenhado pela própria criança responde-lhe todos os dias, antes de ela ter de perguntar — e o jogo da noite termina sempre na única certeza que não muda de casa: quem gosta dela.

O que é preciso

  • Uma folha grande ou cartolina
  • Lápis de cor ou canetas
  • Fita-cola ou íman para pendurar

Como se faz

  1. 01Desenhem juntos os dias da semana em quadrados grandes. A criança desenha o símbolo de cada casa — na história é um sol para a mãe e um barco para o pai, mas valem os símbolos que ELA escolher.
  2. 02Pendurem o calendário à altura dos olhos dela, no quarto ou na cozinha. O calendário é dela, não dos adultos.
  3. 03Todas as noites, o jogo: «Onde dormes hoje?» — aponta. «Quem te vai buscar amanhã?» — espreita o desenho. «E quem gosta de ti?» — «Os dois. Sempre, sempre os dois.»
  4. 04Quando o plano mudar — e às vezes muda —, mudem o desenho juntos ANTES do dia mudar. Ver a mudança acontecer no papel custa menos do que ser apanhado por ela.

Quando repetir

Todas as noites, à hora de deitar, de preferência nas duas casas — vale a pena mostrar esta página ao outro progenitor. Se só uma casa aderir, funciona na mesma. Se uma noite a criança não quiser jogar, o adulto pode só apontar os desenhos e dizer a última linha; a resposta fica no ar, e isso chega.

Para os dias e semanas seguintes, há mais quatro atividades deste tema no O Kit das Duas Casas.

↑ Reler o guia para o adulto