Suspeita que um aluno se está a magoar a si próprio

Como reconhecer os sinais, abrir a conversa sem interrogar e encaminhar no próprio dia — sem diagnosticar, sem pedir para ver e sem prometer segredo.

Antes de continuar

Esta ficha trata uma situação que ultrapassa o papel do professor. Serve para reconhecer os sinais e saber a quem entregar a situação — não para a gerir sozinho.

Se és tu que estás a passar por isto, liga 1411: é gratuito e atende a qualquer hora.

9 secções. Abre a de que precisas.

  1. O que se passa, e o que se vê na sala

    Seis sinais observáveis em contexto de aula — roupa, educação física, ferimentos repetidos, isolamento novo — a regra de nunca pedir para ver, e o que fazer se aparecer intenção de morrer.

    Magoar-se de propósito é muitas vezes uma forma de aliviar uma emoção que o aluno não consegue suportar. Não é encenação, e tratar como tal afasta-o do único adulto que reparou. No estudo HBSC 2022, 24,6% dos alunos portugueses do 8.º e do 10.º ano referiram ter-se magoado de propósito pelo menos uma vez no ano anterior — eram 19,6% em 2018. A pergunta foi feita apenas a estes dois anos de escolaridade, não ao 6.º. Nenhum sinal isolado prova nada: o que conta é a mudança em relação ao que era habitual naquele aluno, mantida durante semanas. E se em algum momento aparecer intenção de morrer, isto deixa de ser questão de observar: não deixes o aluno sozinho, manda chamar a direção e liga 112 — a linha SNS 24 (808 24 24 24, opção 4) atende 24 horas por dia.

    • Passou a tapar braços ou pernas em situações em que antes não o faziaMangas compridas com calor, pulseiras largas, casaco que não tira dentro da sala. Repara na mudança, não na peça de roupa.
    • Começou a arranjar dispensas de educação física, natação ou balneáriosSobretudo se antes participava sem problema. As justificações tendem a mudar de semana para semana.
    • Aparece com ferimentos repetidos e explicações que não encaixamNão peças para ver nem tentes apanhar a versão dele em contradição. Regista o que observaste e passa ao psicólogo da escola.
    • Afastou-se: deixou de estar com o grupo, come sozinho, sai a correr ao toqueIsolamento novo, não timidez antiga. Pergunta ao conselho de turma se também repararam — sem nomear a suspeita.
    • Queda súbita no trabalho, no sono ou na assiduidade, sem explicação escolarAdormecer nas aulas, entregas que pararam de repente, faltas concentradas em certos dias ou certas disciplinas.
    • Escreve, desenha ou publica sobre não valer nada, não aguentar mais ou desaparecerInclui textos entregues em português, margens de testes e o que os colegas te trazem. Trata sempre como comunicação a sério, mesmo que pareça encenado.

    Fonte: HBSC 2022

  2. Nas primeiras 24 horas

    Seis passos a fazer hoje, por ordem: registar em factos, falar a sós dez minutos, dizer os limites do sigilo, entregar ao psicólogo em mão, informar a direção e o que fazer se houver risco imediato.

    Não deixes para amanhã e não trates disto sozinho — são os dois erros que fazem a diferença. Estes passos cabem num dia normal de aulas.

    Fonte: DGE

  3. O que dizer

    Seis frases prontas a ler: como abrir sem interrogar, como dizer o sigilo com limites, como fazer a pergunta direta quando ele diz algo ambíguo, como assumir o teu limite e como entregar ao psicólogo à frente do aluno.

    Frases para usar tal como estão. Substitui apenas o nome. Perguntar-lhe se tem pensado em fazer mal a si próprio é seguro e podes fazê-lo; perguntar como, com quê ou quantas vezes não é — esse detalhe não muda nada do que tens de fazer a seguir e obriga-o a reviver aquilo contigo. Se em qualquer momento ele disser que se quer matar, a conversa acaba aqui: ficas com ele, mandas chamar a direção e ligas 112. Para ele, para a família ou para ti, a linha SNS 24 — 808 24 24 24, opção 4 — atende 24 horas por dia, gratuitamente.

    Podes dizer assim

    • Reparei que nas últimas semanas andas mais em baixo e mais afastado dos outros. Não te vou pedir para me mostrares nada. Só quero saber como estás.

      Abertura. Nomeia a mudança que observaste, não a suspeita. Depois cala-te e espera — o silêncio não é problema, é espaço.

    • Não estás em sarilhos. Não te chamei para ralhar contigo, e não vou falar disto à turma.

      Diz cedo, sobretudo se ele se fechar ou perguntar se «vai ficar registado». Muitos alunos calam-se por medo de castigo, não por vergonha.

    • O que me disseres fica entre nós, com uma exceção: se eu perceber que a tua segurança está em risco, tenho de falar com quem te pode ajudar. E não faço isso nas tuas costas — digo-te quem vou contactar e quando.

      Antes de ele começar a contar, nunca depois. É a única formulação do sigilo que podes usar; qualquer promessa mais generosa do que esta é uma promessa que vais quebrar.

    • Quando dizes que estás farto de tudo, o que é que isso quer dizer? Pergunto-te a direito: tens pensado em fazer mal a ti próprio, ou em morrer?

      Para a frase ambígua — «estou farto de tudo», «já ninguém dava por nada». É o caso mais frequente e aquele em que os professores mais hesitam. Perguntar diretamente sobre pensamentos suicidários não põe a ideia na cabeça de ninguém nem aumenta o risco — a Ordem dos Psicólogos é explícita nisso, e a pergunta pode até aliviar. Pergunta uma vez, com calma, e para aí: não perguntes como, nem com quê, nem quando. Isso é avaliação clínica, não é ato de professor, e não te compete aplicar escalas de risco. A resposta não muda o que fazes a seguir — não o deixas sozinho, levas hoje ao psicólogo e à direção — e se ele disser que é hoje, ligas 112.

    • Isto é maior do que aquilo que eu sei fazer, e tu mereces alguém que perceba mesmo disto. Vou falar hoje com a psicóloga da escola.

      Quando ele conta algo que te ultrapassa. Dizer o teu limite em voz alta não é abandonar — é mostrar que a resposta não depende da tua boa vontade.

    • Vou já contigo até lá. Não tens de repetir tudo outra vez — eu digo o essencial e tu acrescentas o que quiseres.

      Na entrega ao psicólogo ou ao diretor de turma. Acompanhar reduz muito a hipótese de o aluno desaparecer pelo caminho ou desmarcar depois.

    Fonte: OPP DAPP 2025

  4. O que não dizer, e porquê

    Seis coisas que parecem cuidado e não são: pedir para ver as marcas, perguntar o método, prometer segredo, exigir a promessa de que não volta a acontecer.

    Cada um destes já foi feito por professores bem-intencionados. Todos aumentam a probabilidade de o aluno se calar — e o aluno calado é o que fica sem resposta.

    • Pedir para ver as marcas, mandar levantar a manga ou tirar o casaco

      Transforma o acolhimento numa inspeção e humilha. E não precisas de ver nada: a decisão de encaminhar já está tomada pelo que observaste.

      Em vez disso: descreve a mudança que reparaste e pergunta como está, sem pedir prova nenhuma.

    • Perguntar como se magoou, com que objeto, quantas vezes, com que profundidade

      O detalhe do método não altera nada do que tens a fazer, obriga o aluno a reviver aquilo contigo — e tu não és a pessoa que o pode ajudar com isso.

      Em vez disso: pergunta o que anda a ser difícil na vida dele e desde quando, e deixa o resto para quem tem competência clínica.

    • Prometer segredo absoluto: «isto fica só entre nós, não digo a ninguém»

      Se depois tiveres de comunicar, o aluno aprende que os adultos mentem. Fecha-se ao psicólogo, ao médico e a quem vier a seguir.

      Em vez disso: usa a formulação do sigilo com limites, dita antes de ele começar a contar.

    • Pedir-lhe que prometa — ou assine — que não volta a magoar-se

      Não há evidência de que contratos de não-suicídio ou promessas deste tipo reduzam o risco. Transferem para o aluno uma responsabilidade que é dos adultos e ensinam-no a esconder em vez de contar.

      Em vez disso: garante que ele sai da conversa com uma consulta marcada e o nome concreto de um adulto a quem pode chegar amanhã.

    • Dizer, a ele ou na sala de professores, que «é só para chamar a atenção»

      Mesmo quando existe um pedido dirigido aos outros, é um pedido a sério. A frase circula, chega ao aluno e fecha a porta que tinhas acabado de abrir.

      Em vez disso: trata como sinal de sofrimento que exige resposta, independentemente da intenção que lhe atribuas.

    • Falar do caso à turma, ou encarregar os amigos de o vigiarem e te reportarem

      Expõe o aluno e põe adolescentes a carregar uma responsabilidade de adultos. Dentro de um grupo de amigos, é também assim que estes comportamentos se propagam.

      Em vez disso: agradece aos amigos que te procuraram, diz-lhes que já falaste com quem trata disto e que a função deles é continuar a ser amigos.

    Fonte: NICE NG225

  5. Quando é hoje, e não amanhã

    Seis situações em que não se marca reunião nem se espera pelo dia seguinte, com o que fazer em cada uma — 112, saúde escolar, direção.

    Aqui não te compete avaliar gravidade nem aplicar escalas de risco: isso não é ato de professor e as escalas não preveem quem se vai magoar. Compete-te não deixar o aluno sozinho e chamar quem tem competência.

    • Diz que se quer matar, ou fala em desaparecer com um plano concretoNão peças detalhes do plano. Fica com ele, manda alguém chamar a direção e liga 112.
    • Tem um ferimento a sangrar, infetado ou que precisa de ser vistoAcompanha à enfermaria ou ao apoio de saúde escolar hoje. Se for grave, 112. Não avalies tu a gravidade.
    • Está alterado por álcool ou outras substâncias e fala em magoar-seRisco imediato. Não o deixes sair da escola nem ir sozinho para casa: direção e 112.
    • Diz que em casa ninguém sabe e que tem medo do que acontece se souberemNão telefones à família por tua iniciativa. Leva hoje ao psicólogo e à direção — pode ser caso de comunicação à CPCJ.
    • Já tinha sido sinalizado, mas piorou visivelmente esta semanaReabre o caso no próprio dia com o psicólogo. Piorar depois de sinalizado não é esperado nem é assunto para a próxima reunião de conselho de turma.
    • Um colega vem dizer-te que ele se anda a magoarVale como sinal e trata-se hoje. Não peças ao colega provas, capturas de ecrã, nem que fique a vigiá-lo.

    Fonte: SNS 24

  6. A quem encaminhar, e por que ordem

    A cadeia por ordem, com números: psicólogo da escola hoje, diretor de turma e direção, saúde escolar, SNS 24 (808 24 24 24, opção 4), 112 e CPCJ.

    Por esta ordem. O teu papel termina na entrega — mas só termina depois de confirmares que a entrega aconteceu.

    Fonte: DRE

  7. O que registar por escrito

    Quatro coisas a escrever no próprio dia, três que não se escrevem nunca, e onde fica o papel.

    O registo protege o aluno e protege-te a ti. Escreve hoje, enquanto te lembras das palavras dele.

    Fonte: CNPDPCJ

  8. Falar com a família

    Cinco frases para o telefonema ao encarregado de educação: como começar sem o assustar, como não diagnosticar, e os dois pedidos concretos para hoje.

    Só telefonas se a direção decidir que és tu a fazê-lo. Nunca telefones se o aluno indicar que o perigo vem de casa — nesse caso a comunicação é da escola, com a CPCJ se for necessário. Liga de uma sala fechada, não do corredor.

    Podes dizer assim

    • Boa tarde. Estou a ligar da escola. Antes de mais: o [nome] está bem e está aqui connosco, não é uma emergência. Preciso de falar consigo hoje sobre uma preocupação minha.

      As primeiras palavras. Um telefonema da escola assusta — desarma o susto antes de dizeres o resto, ou não vais ser ouvido.

    • Notei mudanças no [nome] nas últimas semanas e há indícios de que se possa estar a magoar a si próprio. Não sou psicólogo e não estou a fazer diagnósticos — estou a dizer-lhe o que observei.

      O núcleo da chamada. Diz o que viste e assume o teu limite na mesma frase. Não descrevas ferimentos nem métodos.

    • Não venho procurar culpados, e isto acontece em famílias que estão a fazer tudo bem. O que precisamos é de agir depressa, juntos.

      Para a reação defensiva ou de culpa — é a mais comum, e se não for atendida perde-se o resto da conversa.

    • Peço-lhe duas coisas para hoje: que o [nome] não passe muitas horas sozinho, e que contacte o médico de família. Se precisar de falar com alguém esta noite, a linha SNS 24 é 808 24 24 24, opção 4 — atende um psicólogo, 24 horas por dia.

      Fecha sempre com pedidos concretos e um número. Um encarregado de educação que desliga sem tarefa nenhuma não faz nada até à semana seguinte.

    • A psicóloga da escola vai contactá-lo. Se até [dia] ninguém tiver ligado, telefone-me a mim.

      Não deixes o encaminhamento pendurado numa promessa vaga. Dá um prazo e um responsável — e avisa a psicóloga de que o deste.

    Fonte: OPP

  9. Acompanhar depois

    Cinco momentos ao longo do mês seguinte: confirmar que o encaminhamento aconteceu, o contacto de dois minutos, o que se ajusta na avaliação e quando se revê.

    Depois de encaminhares, o teu papel muda mas não acaba. É de presença previsível, não de vigilância.

    1. Nas 48 horas seguintesConfirma, com o psicólogo ou o diretor de turma, que o aluno foi efetivamente visto. Encaminhamentos perdem-se entre serviços — não assumas que aconteceu só porque comunicaste.
    2. Na primeira semanaDois minutos por dia, sempre no mesmo momento: à entrada da sala, um cumprimento pelo nome, uma pergunta banal. Nunca «então, voltaste a magoar-te?». O que estabiliza é a previsibilidade, não a intensidade.
    3. Entre a segunda e a quarta semanaAjusta a exigência com prazo marcado, não para sempre: adiar uma apresentação oral, dividir um trabalho em partes, dar uma data alternativa. Combina no conselho de turma para não depender só de ti, e escreve quando é que se revê.
    4. Ao fim de um mêsCinco minutos no conselho de turma com três perguntas: o apoio clínico está mesmo a acontecer? há um adulto de referência definido? os ajustes ainda ajudam, ou já o estão a marcar como o aluno diferente?
    5. Nos períodos de maior pressãoExames, regresso de interrupções letivas, mudança de turma ou de ciclo, e os aniversários de perdas se as houver. São os momentos em que os sinais voltam. Volta a olhar, mesmo que tudo pareça resolvido.

    Fonte: DGE

Recursos oficiais

Fontes

  1. HBSC 2022 — A Saúde dos Adolescentes Portugueses em Contexto de Pandemia — Dados nacionais do estudo HBSC 2022
  2. DGE — Educação Inclusiva — serviços de psicologia e orientação e equipas multidisciplinares
  3. OPP DAPP 2025 — Avaliação e Intervenção Psicológica no Suicídio — Documentos de Apoio à Prática Profissional (agosto de 2025)
  4. NICE NG225 — Self-harm: assessment, management and preventing recurrence (guideline NG225, 2022)
  5. SNS 24 — Linha SNS 24 — aconselhamento de saúde e apoio psicológico
  6. DRE — Lei n.º 147/99 — Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo (texto consolidado)
  7. CNPDPCJ — Comissões de Proteção de Crianças e Jovens — competências e contactos
  8. OPP — Ordem dos Psicólogos Portugueses — recursos para a comunidade educativa

2.º ciclo · 3.º ciclo · Secundário
Cidadania: Saúde — mas sem aplicação direta em sala: esta ficha dirige-se ao adulto e não tem componente para trabalhar com a turma.
Atualizada a 28 de julho de 2026.