Um aluno adoeceu gravemente, ou adoeceu alguém próximo dele

Como manter o lugar na turma de um aluno que falta por doença, preparar o regresso quando a aparência mudou, e acompanhar quem tem um familiar gravemente doente — com as medidas legais concretas que a família pode pedir.

Se houver perigo

9 secções. Abre a de que precisas.

  1. O que costuma acontecer

    Porque é que o aluno doente e o aluno com um familiar doente são dois problemas diferentes — e onde acaba o papel do professor.

    São duas situações diferentes e convém separá-las.

    • Quando é o aluno que adoece, o problema raramente é a matéria. É a ausência prolongada, o regresso e o lugar na turma. O tratamento pode alterar a aparência, provocar fadiga que não passa com uma noite de sono e afetar a atenção e a memória durante meses depois da alta.
    • Quando adoece um familiar próximo, o aluno continua a vir às aulas. Mas vai dormir a casa de um sítio onde tudo mudou, e a escola passa a ser muitas vezes o único lugar previsível do dia. Alguns assumem tarefas de cuidador. Outros ficam subitamente irrepreensíveis — e isso não é boa notícia.

    Um dado que serve para o professor não catastrofizar: o cancro pediátrico é raro (cerca de 400 novos casos por ano em Portugal) e a taxa de cura ronda os 80%. Serve para ti; não serve para dizer à turma, porque nenhuma criança concreta é uma percentagem.

    Em ambos os casos o professor não gere a doença: gere a escola. Acolher, adaptar a exigência, guardar o lugar na turma, comunicar e encaminhar. Não é preciso perceber de medicina para fazer isto bem.

    Fonte: Acreditar

  2. Nas primeiras 24 horas

    Cinco passos para a primeira semana: perguntar à família e ao aluno, acionar o pedido de apoio, resolver as faltas e nomear um contacto único.

    Nada disto exige saber o diagnóstico. Por esta ordem.

    Fonte: DR

  3. O que dizer à turma antes de um colega regressar

    Cinco falas para preparar a turma para um regresso com aparência alterada — combinadas primeiro com o próprio aluno — incluindo a resposta a «ele vai morrer?».

    Antes de falares com a turma, combina com o próprio aluno: o que quer que seja dito, o que não quer que se diga, e se prefere estar presente ou não. Precisas das duas coisas — a autorização da família e o acordo dele. Do 2.º ciclo em diante, o que se conta do corpo dele decide-se com ele; se a família autorizar e ele não quiser, dizes menos, nunca mais. Com os mais novos, pergunta na mesma e ajusta a resposta à idade — mesmo aos seis anos há quem não queira que se fale do cabelo.

    Um achado da investigação — de um estudo pequeno, num único centro, mas que muda o guião: os colegas costumam já saber os factos médicos. O que os preocupa é outra coisa — a possibilidade de o colega morrer, e não saberem como se comportar. Preparar a turma serve para tirar o susto do primeiro minuto, não para dar uma aula sobre a doença.

    Podes dizer assim

    • Na segunda-feira o Miguel volta às aulas. Vão notar que está diferente: perdeu o cabelo e está mais magro. É por causa dos medicamentos que teve de tomar, e o cabelo volta a crescer.

      A frase central. Diz o que vão ver antes de o verem — o embaraço nasce da surpresa, não da doença. Lê-lhe a frase antes: as palavras exatas sobre o corpo dele têm de ser palavras que ele aceitou.

    • O que ele tem não se apanha. Mas ao contrário: se estiverem constipados ou com febre, digam-me, porque uma constipação vulgar pode ser um problema sério para ele.

      Diz a primeira parte só se for verdade. E não te esqueças da segunda, que é a que quase ninguém sabe: o risco costuma ser da turma para o aluno, e não o inverso. Avisa também os outros encarregados de educação.

    • Ele continua a ser o mesmo. Não precisam de fazer nada de especial nem de falar disto. Falem com ele do que falavam antes.

      É o que os colegas mais precisam de ouvir: que não têm de acertar em nada. É isto que evita o silêncio à volta da mesa do refeitório.

    • Pode ser que se canse mais depressa, que falte alguns dias ou que saia mais cedo. Quando acontecer, não é preciso perguntar porquê.

      Autoriza antecipadamente tudo o que vai acontecer, para que não seja notícia de cada vez.

    • Não sei. O que sei é que ele está a ser tratado e que hoje está aqui connosco.

      Para quando alguém perguntar se o colega vai morrer — e alguém vai perguntar. Nunca prometas «vai ficar tudo bem». Se não se confirmar, perdes a turma e perdes o aluno.

    Fonte: CiE

  4. O que dizer ao aluno cujo pai, mãe ou irmão está doente

    Quatro falas em privado: nomear o assunto, autorizar a saída da sala, adiar sem fazer favor e travar o aluno que compensa.

    Em privado, curto, sem perguntas. O objetivo não é fazê-lo falar — é ele saber que o professor sabe.

    Podes dizer assim

    • Sei que a tua mãe está doente. Não te vou fazer perguntas sobre isso, nem falar disto à frente da turma. Só queria que soubesses que eu sei.

      A primeira coisa a dizer. Nomear o assunto e no mesmo fôlego dizer que não vai insistir é o que baixa a guarda.

    • Se houver um dia em que não consigas estar aqui, sais da sala sem pedir e sem explicar. Fica combinado assim.

      A autorização antecipada para sair é das coisas mais úteis que um professor pode dar, e das mais raras.

    • Este teste pode ficar para a semana que vem. Não é um favor: quem falta por um motivo justificado tem direito a recuperar o que perdeu.

      Adiar sem transformar em caridade. Tirar-lhe a dívida que ele não pediu é metade do efeito.

    • Não tens de dar conta de tudo. Aqui, esta semana, chega o que conseguires fazer.

      Para o aluno que se torna subitamente perfeito. Alguns compensam em casa e compensam na escola, e ninguém repara porque as notas até sobem.

    Fonte: Dougy Center

  5. O que não dizer, e porquê

    Seis erros comuns e a alternativa — a começar pela frase que sai sozinha e não se pode cumprir.
    • «Vai ficar tudo bem», «ela vai sarar», «isso passa»

      É a frase que sai sozinha e é uma promessa que o professor não tem como cumprir. Se não se confirmar, o aluno aprende duas coisas ao mesmo tempo: que a pessoa morreu e que os adultos lhe mentem quando é a sério.

      Em vez disso: dizer o que se sabe e admitir o que não se sabe: «não sei o que vai acontecer; sei que estão a tratá-la e sei que estou aqui». A esperança mantém-se sem se prometer o resultado.

    • Pedir ao aluno que explique à turma a doença e os tratamentos

      Parece pedagógico e é exposição. Transforma o corpo dele em matéria de aula, à frente de trinta pessoas, num assunto que ele não escolheu tornar público.

      Em vez disso: ser o professor a dizer o essencial, combinado antes com o aluno e com a família. Se for ele a querer esclarecer alguma coisa no dia, esclarece — a iniciativa é dele, nunca um pedido teu.

    • «Tens de ser forte pela tua mãe», «agora és tu que ajudas em casa»

      Transfere para uma criança uma responsabilidade adulta. Muitas já a estão a assumir sozinhas — dar-lhes a medalha por isso fecha-lhes a porta a pedir ajuda.

      Em vez disso: dizer explicitamente o contrário: «não tens de tomar conta de ninguém; a tua parte é vires à escola e seres aluno».

    • Dispensá-lo de tudo e deixá-lo de fora «para não se cansar»

      A superproteção retira-lhe exatamente aquilo que ele vem buscar à escola: ser tratado como os outros. Evitar a superproteção e incluí-lo nas atividades, mesmo adaptadas, é das recomendações mais insistentes da Acreditar aos professores.

      Em vez disso: adaptar a atividade em vez de o dispensar dela — o papel de árbitro, a parte do trabalho de grupo que se faz sentado, a visita de estudo mais curta.

    • Perguntar ao aluno, no corredor ou à porta da sala, como está o familiar

      Obriga-o a fazer um ponto de situação clínico entre aulas e com público. E a resposta é quase sempre «está melhor», que não quer dizer nada.

      Em vez disso: perguntar em privado e perguntar por ele, não pelo doente: «como é que tem sido a tua semana?»

    • Deixar correr as faltas pelo circuito normal da assiduidade

      Uma carta automática sobre excesso de faltas a chegar a uma família em tratamento faz um estrago desproporcionado — e é inteiramente evitável.

      Em vez disso: resolver a justificação logo na primeira semana e avisar os serviços administrativos. Em doença crónica ou recorrente, uma só declaração médica pode cobrir o ano letivo inteiro.

    Fonte: Acreditar

  6. Sinais que exigem encaminhamento

    Seis sinais observáveis — dois deles fáceis de confundir com boas notícias — e o único que não espera, com os contactos de crise à mão.

    A doença na família não é uma doença do aluno, e a maioria atravessa isto sem precisar de intervenção especializada. Sinaliza quando observares, de forma persistente e ao longo de várias semanas:

    • Queda mantida do rendimento, para além do que as ausências explicamDistingue o que é matéria em atraso, que se recupera, do que é dificuldade em pensar.
    • Dificuldade nova de atenção e de memória depois do tratamentoNos alunos que fizeram tratamento oncológico pode manter-se meses depois da alta. Não é falta de esforço, e a resposta certa é sinalizar à EMAEI — não exigir mais horas de estudo.
    • Recusa de vir à escola — ou o contrário, recusa de faltar mesmo doente
    • Isolamento dos colegas depois do regresso, ou ficar sistematicamente de foraO regresso à turma é a parte que corre mal com mais frequência, e passa despercebida porque é silenciosa. Repara no recreio e no refeitório, não na sala.
    • Um aluno que se torna subitamente irrepreensível e disponível para tudoQuem assume o papel de adulto em casa costuma assumi-lo também na escola. Passa por boa notícia e não é.
    • Qualquer referência a querer morrer, a desaparecer ou a trocar de lugar com a pessoa doenteEste não espera por semanas nenhumas. Comunica no próprio dia à direção e ao serviço de psicologia, e fica com o aluno até entregares a situação a alguém. Não te cabe medir a gravidade nem decidir se é a sério — cabe-te não deixar passar. Se houver perigo imediato, liga 112. Para aconselhamento de saúde a qualquer hora, para ti ou para a família, SNS 24 — 808 24 24 24.

    Fonte: OPP

  7. A quem encaminhar, e por que ordem

    As quatro portas por ordem, com os prazos legais, os contactos de crise, e a linha a partir da qual isto deixa de ser saúde e passa a ser proteção.

    Quatro portas, e nenhuma delas exige diagnóstico da parte do professor.

    • A equipa multidisciplinar de apoio à educação inclusiva (EMAEI) do agrupamento. É a porta por defeito, e existe em todas as escolas. Um problema de saúde que implique irregularidade na frequência escolar cabe na definição legal de necessidades de saúde especiais do Decreto-Lei n.º 54/2018.
    • O diretor do agrupamento, através da família. Havendo doença oncológica, os apoios da Portaria n.º 350-A/2017 são requeridos pelos pais ao diretor. Se a escola não tiver disponível o apoio pedido, o processo sobe à Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares, que decide em dez dias úteis. Vale a pena a família saber que há prazos. Se o aluno estiver internado, as medidas podem ser asseguradas por uma escola próxima do hospital, em articulação com os docentes que aí trabalham.
    • A equipa de saúde escolar do centro de saúde (ACES/ULS). É quem elabora o plano de saúde individual, que corre em paralelo com as medidas educativas. Chega-se lá pela direção, não diretamente.
    • A Acreditar, em doença oncológica. Apoio escolar e terapias complementares, gratuitos, por profissionais voluntários; materiais para sensibilizar a turma e disponibilidade para ir à escola. Quem pede é o encarregado de educação, não a escola.

    A Comissão de Proteção não é o destino de uma doença. Só entra se a doença de um adulto deixar a criança sem cuidador capaz ou sem condições de vida, e a escola não conseguir resolver isso. Nesse caso, comunica-se à direção no próprio dia.

    E os contactos para quando não há tempo para portas nenhumas. Perigo imediato para a vida, do aluno ou de quem está em casa: 112. Dúvida clínica ou aconselhamento, para ti ou para a família, a qualquer hora do dia ou da noite: SNS 24 — 808 24 24 24. Nenhum dos dois dispensa comunicar à direção; ligam-se antes, não em vez.

    Fonte: DL 54/2018

  8. Falar com a família

    Duas mensagens prontas a adaptar — uma para cada caso — e a pergunta a fazer quando a família não quer falar.

    Escreve cedo e faz perguntas concretas. «Diga-nos se precisar de alguma coisa» entrega a uma família em crise o trabalho de decidir.

    Podes dizer assim

    • Cara Senhora Dona Marta, tomámos conhecimento da situação de saúde do Miguel e lamentamos. Escrevo por três razões práticas. A primeira: gostaríamos de saber o que prefere que seja dito aos colegas, e o que prefere que não se diga — e vamos combinar o mesmo com o Miguel, porque a última palavra sobre o que se conta do corpo dele deve ser dele. A segunda: se houver tratamentos que o impeçam de vir às aulas, pode requerer ao diretor do agrupamento as medidas de apoio previstas na Portaria n.º 350-A/2017 — incluem apoio educativo individual em casa ou no hospital e condições especiais de avaliação e de frequência. O pedido leva três documentos: comprovativo da doença, declaração médica de que a situação clínica é compatível com o apoio, e uma declaração sua de assunção de responsabilidade; nós ajudamos a instruí-lo. A terceira: tratando-se de doença de caráter crónico ou recorrente, basta uma declaração médica para justificar as faltas de todo o ano letivo, não é preciso uma de cada vez. Fico como pessoa de contacto da escola, para não ter de repetir isto a vários professores.

      Modelo para o aluno doente. Adaptar os nomes. Enviar nos primeiros dias — a informação legal é o que quase nenhuma família tem, e é a parte que mais rende.

    • Cara Senhora Dona Helena, soubemos que o pai da Inês está doente. Não precisa de nos dar detalhes nenhuns. Só duas coisas: se houver dias em que a Inês não consiga vir, ou não consiga estar, diga-nos e tratamos das faltas e das avaliações sem burocracia. E se em casa lhe estiver a caber ajudar mais do que é habitual, é útil sabermos — apenas para ajustarmos o que lhe pedimos aqui.

      Modelo para o familiar doente. Outra família, outro nome: dentro da mesma ficha os dois casos não partilham personagens. Repara no que não está lá — nenhuma pergunta sobre o diagnóstico, o prognóstico ou quanto tempo falta.

    • Não precisa de me dizer nada sobre a doença. O que me ajudava mesmo a saber era outra coisa: o que é que, da parte da escola, lhe tirava peso esta semana?

      Ao telefone ou à porta da escola, quando a família não quer falar. Muda a conversa do diagnóstico para aquilo que a escola pode efetivamente fazer.

    Fonte: Lei 51/2012

  9. Acompanhar depois

    O que fazer antes do regresso, na primeira semana, ao fim de um mês e nas datas em que a escola magoa sem querer.

    O apoio costuma evaporar-se ao fim de duas ou três semanas, precisamente quando a família fica sozinha com o problema. Marca isto na agenda, não na memória.

    1. Antes do regresso, nunca no próprio diaCombina com o aluno o que vai ser dito, se prefere entrar antes ou depois dos colegas, e onde se senta. Cinco minutos ao telefone poupam a cena do primeiro minuto.
    2. Na primeira semana de regressoNão recuperes avaliações. Recupera o lugar na turma: um par com quem entre, um papel no trabalho de grupo, uma tarefa de sala. A matéria vem a seguir e recupera-se; o lugar na turma, se se perder, não.
    3. Ao fim de um mêsPonto de situação com a EMAEI e com o serviço de psicologia, e releitura do que ficou combinado. As adaptações têm o hábito de se manter no papel e desaparecer na prática. A Portaria n.º 350-A/2017 põe a aplicação e a avaliação da eficácia destas medidas na responsabilidade do diretor de turma ou do professor titular — ou seja, é contigo.
    4. Nas datas e nos temas sensíveisAulas sobre o corpo humano, a doença ou a morte; trabalhos sobre a família; a fotografia da turma; a visita de estudo com esforço físico. Antecipa e oferece alternativa em privado, antes de propores a atividade à turma.
    5. Fim do ano letivoPassa a informação e as adaptações em vigor ao professor seguinte, com o conhecimento da família. Um aluno que tem de explicar tudo outra vez em setembro é uma falha da escola, não dele.

    Fonte: CiE

Recursos oficiais

Fontes

  1. Acreditar — Cancro pediátrico: informações aos professores («Quando um aluno tem cancro»)
  2. DR — Portaria n.º 350-A/2017, de 14 de novembro — medidas de apoio educativo a prestar a crianças e jovens com doença oncológica
  3. CiE — Optimization of School Reintegration for Pediatric Oncology Patients and Their Peers
  4. Dougy Center — Recursos para escolas sobre luto na infância e adolescência
  5. OPP — Ordem dos Psicólogos Portugueses — recursos para a comunidade educativa
  6. DL 54/2018 — Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho — regime jurídico da educação inclusiva (artigo 12.º, n.º 8: competências da equipa multidisciplinar de apoio à educação inclusiva). Publicação oficial, Diário da República n.º 129/2018, 1.ª série.
  7. Lei 51/2012 — Lei n.º 51/2012, de 5 de setembro — Estatuto do Aluno e Ética Escolar (artigo 43.º, n.os 5, 6 e 7: quem é o encarregado de educação em caso de divórcio ou separação e em residência alternada). Publicação oficial, Diário da República n.º 172/2012, 1.ª série.

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Cidadania: Saúde
Atualizada a 28 de julho de 2026.