O bullying passou para os telemóveis e as redes

O que o professor faz quando a agressão continua fora do recinto: guardar prova sem investigar, participar à direção no próprio dia, encaminhar bem e falar à turma sem dar palco.

Se houver perigo

9 secções. Abre a de que precisas.

  1. O que muda quando passa para o telemóvel

    Quatro diferenças em relação ao bullying do recreio — e a dimensão real do efeito dos programas, para gerir expectativas.

    O que muda não é a gravidade. É a geografia, a audiência e o tempo.

    • Não para à porta da escola. O aluno sai do recinto e continua a receber. Não há intervalo, não há fim de semana, não há casa segura.
    • A audiência é maior e invisível. Uma humilhação no recreio tem quinze testemunhas. Um vídeo num grupo tem quinhentas — e quem é visado não sabe quantas nem quem.
    • O registo é permanente e reaparece. O que foi apagado num sítio já foi guardado noutro. Volta a circular meses depois, muitas vezes noutra aplicação.
    • Pode ser anónimo. Contas falsas, perfis criados de propósito. Muitas vezes não se chega a saber quem foi — e a resposta da escola não pode ficar à espera disso.

    Uma nota sobre tamanho do efeito, para quando te pedirem uma solução: a meta-análise de referência sobre programas de prevenção do ciberbullying estima reduções na ordem dos 10% a 15% na prática e de cerca de 14% na vitimação. São reduções reais e são pequenas. Quem te prometer que uma sessão resolve isto está a vender-te alguma coisa.

    Fonte: DOI

  2. Aconteceu fora da escola. É da escola?

    Onde a escola tem competência sobre o que se passou às 23h em casa, onde deixa de ter, e onde deixa de ser matéria disciplinar.

    É a primeira pergunta que a direção te vai fazer. A resposta está no Estatuto do Aluno.

    Sim, é da escola. O dever de respeitar a integridade física e psicológica dos membros da comunidade educativa aplica-se «independentemente do local ou dos meios utilizados» (artigo 10.º, alínea i). E a violação de deveres que se revele perturbadora «das relações no âmbito da comunidade educativa» constitui infração disciplinar (artigo 22.º, n.º 1) — mesmo que os factos tenham ocorrido em casa, à noite, numa aplicação que a escola não controla.

    O que te compete é participar, não apurar. O professor que tenha conhecimento de comportamentos suscetíveis de constituir infração disciplinar «deve participá-los imediatamente ao diretor» (artigo 23.º, n.º 1). Apurar é da direção.

    Onde a escola deixa de poder. Se o autor não for aluno da escola, não há via disciplinar nenhuma — resta a família, a plataforma e a polícia. A escola também não pode obrigar uma plataforma a remover conteúdo, nem exigir telemóveis ou palavras-passe a alunos.

    Onde deixa de ser matéria disciplinar. Ameaçar (Código Penal, artigo 153.º), coagir (154.º), perseguir de forma insistente (154.º-A), devassar a vida privada (192.º e 193.º), divulgar gravações ou fotografias sem consentimento ou contra a vontade da pessoa (199.º) são crimes. A responsabilidade criminal começa aos 16 anos (artigo 19.º: «os menores de 16 anos são inimputáveis»); abaixo disso a resposta segue outras vias, e não é a escola que as decide. Quem contacta a polícia é a direção.

    Fonte: Lei 51/2012

  3. Nas primeiras 24 horas

    Cinco ações por ordem: ouvir, não tocar no telemóvel, mandar guardar antes de bloquear — com a exceção das imagens íntimas, dita antes de tudo o resto —, participar por escrito no próprio dia, combinar o passo seguinte.

    Cinco ações. Nenhuma delas é investigar.

    Fonte: Lei 51/2012

  4. O que dizer

    Quatro falas para o momento em que um aluno conta: acolher, dizer a exceção das imagens íntimas antes de pedir seja o que for, pedir a prova sem lhe pegar no telemóvel, confidencialidade com limites, e o que vai acontecer a seguir.

    A maior parte das crianças e adolescentes vítimas de ciberbullying não conta a nenhum adulto — por vergonha e por recear que lhe retirem o acesso às plataformas. É isso que tem de estar nas primeiras palavras.

    Podes dizer assim

    • Fizeste bem em contar-me. A culpa não é tua e não vou tirar-te o telemóvel por causa disto. O que eu vou fazer é tratar do assunto — e digo-te sempre o que vou fazer antes de o fazer.

      A abrir, em privado. As duas garantias que interessam: não é culpado e não vai ser castigado por ter contado.

    • Antes de mais, uma exceção importante: se o que está a circular forem fotografias ou vídeos íntimos de alguém da tua idade, não guardes nada, não faças capturas e não envies nada a ninguém — vem ter comigo e trato disso hoje. Fora esse caso: não te vou pedir o telemóvel nem para entrares na tua conta à minha frente. Peço-te outra coisa — faz tu as capturas de ecrã, com a data e o nome de quem escreveu à vista, e envia-as com a tua mãe ou o teu pai para o diretor de turma. E não bloqueies ninguém antes de teres tudo guardado.

      É aqui que se resolve a questão das capturas — e é aqui que a exceção tem de ser dita, não no fim da ficha. Imagens íntimas de menores não se visualizam, não se guardam e não se reencaminham, nem a título de prova: pedir capturas delas é mandar produzir e distribuir material que não pode existir. Em tudo o resto, as capturas são feitas por quem é visado ou pela família, no dispositivo deles, e o professor recebe os ficheiros pela via da escola, não pelas mãos.

    • Não te posso prometer que fico só eu a saber. Se houver ameaças, chantagem, ou alguma coisa que te ponha em perigo, tenho de falar com a direção — é a minha obrigação. O que te prometo é que não falo com ninguém sem te dizer primeiro.

      Confidencialidade com limites, dita antes e não depois. Prometer segredo absoluto é uma promessa que se vai ter de quebrar.

    • Percebo que tenhas medo de piorar as coisas. Não te vou dizer que isto acaba amanhã. Digo-te o que vai acontecer: falo hoje com o diretor de turma, digo-te antes o que vou dizer, e voltamos a falar na sexta — mesmo que entretanto não tenha acontecido nada.

      Para o «não diga a ninguém, senão piora». Não se responde com garantias que não se podem dar; responde-se com um plano e uma data.

    Fonte: OPP

  5. O que não dizer, e porquê

    Seis reações instintivas que estragam o caso: pedir o telemóvel, mandar bloquear já, juntar os dois, ler as mensagens à turma, tirar as redes e pôr alunos a recolher prova.
    • «Mostra-me o telemóvel» — ou pedir a palavra-passe, ou entrar na conta do aluno

      Põe o professor a fazer o que não lhe compete e a ver o que não deve, incluindo conteúdo que, tratando-se de menores, ninguém na escola pode guardar. Não precisas de ver para agir, e o que vires não melhora nada. E o aluno que entrega o telemóvel a um professor percebe a mensagem: falar com adultos custa o acesso.

      Em vez disso: pedir que seja o próprio, ou a família, a fazer as capturas no dispositivo deles, e receber os ficheiros pela via formal da escola. Exceção sem exceções: se forem imagens íntimas de um menor, não se pede captura nenhuma a ninguém — comunica-se à direção nesse momento e é ela que aciona a Escola Segura ou a Polícia Judiciária.

    • «Bloqueia já esse perfil e esquece»

      Ao bloquear, deixa de ter acesso às mensagens que comprovam as agressões. A prova evapora-se em segundos e depois ninguém a recupera.

      Em vez disso: guardar tudo primeiro e bloquear ou silenciar a seguir. Se for um grupo, quem decide se mantém o acesso para documentar é o próprio e a família — nunca se pede isso a um colega.

    • Chamar os dois à sala para «resolverem entre eles» ou pedir um pedido de desculpa em frente à turma

      Bullying é uma relação com desequilíbrio de poder; a conversa conjunta reproduz esse desequilíbrio e a vítima minimiza para não piorar. Online é pior ainda: a confrontação transforma-se em novo conteúdo para circular.

      Em vez disso: trabalhar separadamente com cada um e deixar a responsabilização do agressor à via disciplinar, conduzida pela direção.

    • Ler as mensagens em voz alta à turma, projetar as capturas ou reencaminhá-las a colegas

      O motor do dano é a audiência. Cada vez que o conteúdo é mostrado outra vez, a audiência cresce — e a escola passa a fazer o trabalho do agressor.

      Em vez disso: falar da regra e nunca do conteúdo. O caso concreto trata-se em privado, com a direção.

    • «Sai das redes durante uns tempos» ou tirar o telemóvel como resposta protetora

      O medo de perder o acesso é uma das principais razões pelas quais a maioria não conta a um adulto. Transforma proteção em castigo e garante que o próximo aluno se cala.

      Em vez disso: ajudar a reduzir a exposição sem desligar: silenciar a conversa, restringir quem comenta, sair de um grupo depois de guardar o que lá está.

    • Perguntar aos colegas, um a um, o que sabem — ou pedir a um aluno que «vá lá ver e traga as capturas»

      Transforma a escola em investigação e um aluno em informador. Contamina relatos, expõe quem colabora e pode agravar a situação de quem já está a ser visado.

      Em vez disso: participar ao diretor e deixar o apuramento a quem tem competência para o fazer.

    Fonte: OPP

  6. Sinais que exigem encaminhamento

    Seis sinais observáveis, incluindo os que só aparecem à volta do telemóvel. O último não espera: comunica-se no próprio dia e traz consigo os contactos de crise.

    Sinais, não diagnósticos. A maioria dos alunos não vai contar — por isso o que se observa vale mais do que o que se pergunta.

    • Fica perturbado ou irritado durante e logo depois de usar o telemóvelE não explica porquê. Ou mostra-se nervoso de cada vez que chega uma mensagem nova.
    • Faz da vida digital um segredoMinimiza janelas quando um adulto se aproxima, vira o ecrã, evita conversas sobre o assunto.
    • Pede ajuda para eliminar contas ou bloquear contactos — ou desaparece de repente das redesA saída abrupta de um grupo de turma costuma ser sintoma, não decisão.
    • Começa a evitar os sítios onde estão as pessoas de quem se fala onlineFaltas, saídas antecipadas, recusa de trabalhos de grupo, intervalos passados na biblioteca.
    • Queda de rendimento sem explicação, com alterações de sono, humor ou apetiteMuitas vezes é a família que relata a parte do sono e do apetite.
    • Não espera: ameaças de violência, chantagem ou extorsão, incentivo à automutilação ou ao suicídio, imagens íntimas de um menor a circularQualquer um destes comunica-se à direção no próprio dia, independentemente do que o aluno peça. Se houver perigo imediato para a vida de alguém, liga 112. Para ideação suicida, automutilação ou incentivo a qualquer uma delas, o contacto é o SNS 24 — 808 24 24 24, com aconselhamento psicológico 24 horas por dia (opção 4), a dar à família nesse mesmo dia. Não te compete avaliar risco de suicídio nem aplicar escalas: compete-te comunicar hoje.

    Fonte: OPP

  7. A quem encaminhar, e por que ordem

    Onde ligar em crise (112 e SNS 24 — 808 24 24 24) e seis destinos com o critério de cada um: direção, psicologia, Escola Segura, CPCJ, Linha Internet Segura 800 21 90 90 e a denúncia na própria plataforma.

    Antes da lista, os dois contactos que não esperam por reunião nenhuma: 112, se houver perigo imediato para a vida de alguém; SNS 24 — 808 24 24 24, com aconselhamento psicológico 24 horas por dia (opção 4), sempre que houver ideação suicida, automutilação ou incentivo a qualquer uma delas. Comunicas à direção na mesma; a avaliação clínica não é tua.

    O resto, por esta ordem. Nenhum destes contactos é feito pelo professor sozinho, à revelia da direção.

    Fonte: APAV

  8. O que registar por escrito

    Seis pontos a deixar escritos — e o único conteúdo que nunca se guarda, nem a título de prova.

    Factos e palavras textuais, não interpretações. O teu registo documenta o caso; não é o arquivo do conteúdo.

    Fonte: ME

  9. Sessão com a turma

    Quatro falas de dois minutos, sem nomes e sem mostrar nada — e a razão para não marcar uma sessão especial sobre o caso.

    Não marques uma sessão especial. Anunciar que «vamos falar sobre uma coisa que aconteceu» sinaliza a toda a gente que houve um caso, aponta para quem foi visado e dá exatamente o palco que o agressor procura. Além disso, as revisões mostram que a sessão única de sensibilização não muda comportamento e que acrescentar componentes a um programa não melhora resultados. Fala dois minutos, no início de uma aula normal, e repete a mesma regra outras vezes. O objetivo é um só: encolher a audiência.

    Podes dizer assim

    • Não vou falar de nenhum caso em concreto nem quero nomes agora. Vou dizer uma coisa só: reencaminhar uma mensagem que humilha alguém é participar. Não é assistir.

      No início da aula, de pé, sem projetar nada e sem olhar para ninguém em particular.

    • Se vos aparecer alguma coisa a circular sobre um colega, não respondam, não partilhem, não comentem. Guardem e mostrem a um adulto. Quem partilha aumenta a audiência — e é a audiência que faz o estrago.

      A regra prática. É a única coisa que precisa de ficar retida, e a única que vale a pena repetir todas as semanas.

    • Quem souber alguma coisa não tem de dizer aqui à frente de todos. Ficam comigo cinco minutos no fim da aula, ou mandam um recado ao diretor de turma. Não digo à turma quem falou comigo.

      Abre uma via privada e promete só o que se pode cumprir — «não digo à turma», e não «não digo a ninguém».

    • E não vou pedir a ninguém que conte aqui o que lhe aconteceu. Nem hoje, nem noutro dia.

      Para o aluno visado, que está sentado na sala a temer exatamente isso. Esta frase vale mais para ele do que todo o resto do discurso.

    Fonte: Campbell

Recursos oficiais

Fontes

  1. DOI — Gaffney, Farrington, Espelage & Ttofi (2019) — Are cyberbullying intervention and prevention programs effective? A systematic and meta-analytical review
  2. Lei 51/2012 — Lei n.º 51/2012, de 5 de setembro — Estatuto do Aluno e Ética Escolar (artigo 43.º, n.os 5, 6 e 7: quem é o encarregado de educação em caso de divórcio ou separação e em residência alternada). Publicação oficial, Diário da República n.º 172/2012, 1.ª série.
  3. OPP — Ordem dos Psicólogos Portugueses — recursos para a comunidade educativa
  4. APAV — Linha Internet Segura (800 21 90 90, gratuita, dias úteis das 8h às 23h) — apoio a vítimas de cibercrime e denúncia de conteúdos ilegais
  5. ME — Plano Escola Sem Bullying, Escola Sem Violência
  6. Campbell — Gaffney, Ttofi & Farrington (2021) — Effectiveness of school-based programs to reduce bullying perpetration and victimization

1.º ciclo · 2.º ciclo · 3.º ciclo · Secundário
Cidadania: Media
Atualizada a 28 de julho de 2026.