Há um aluno a ser alvo de bullying

O que dizer ao aluno alvo, o que dizer a quem agride numa conversa em separado, o que pedir a quem assiste — e o que a lei obriga o professor a comunicar no próprio dia.

Se houver perigo

9 secções. Abre a de que precisas.

  1. O que costuma acontecer

    Os três elementos que separam bullying de conflito, os papéis dentro da turma, e o tamanho real do efeito que a escola pode esperar.

    Bullying não é conflito, e a diferença não é de vocabulário — é o que decide o que funciona.

    • Há desequilíbrio de poder. Força, idade, estatuto no grupo, número de pessoas de cada lado. Dois alunos em pé de igualdade a discutir é conflito, e aí a mediação serve. Aqui não serve.
    • Repete-se ao longo do tempo. Um episódio isolado é um episódio. O que faz o dano é a previsibilidade: o aluno sabe, à segunda-feira de manhã, o que o espera.
    • É intencional. Não é a brincadeira que correu mal, mesmo quando é essa a explicação apresentada.

    A turma inteira está envolvida, a níveis diferentes: quem agride, quem é alvo e quem assiste. E quem assiste divide-se entre os que reforçam, os que defendem e os que ficam calados. É neste grupo que a escola tem mais margem — e é para ele que quase nunca se dirige.

    Duas coisas ditas de frente. A meta-análise Campbell, que reuniu 100 avaliações de programas, estima uma redução de cerca de 18 a 19% na agressão e de cerca de 15 a 16% na vitimação: efeitos reais e modestos. E no registo Blueprints, consultado a 28 de julho de 2026, nenhum dos programas dirigidos ao bullying atinge o nível máximo de certificação («Model Plus») — o KiVa e o programa de Olweus estão classificados como «Promising». Nada disto é razão para não fazer nada. É razão para desconfiar de quem lhe prometer que um material resolve isto.

    Fonte: Campbell

  2. Nas primeiras 24 horas

    Seis ações para amanhã, por ordem: falar com o aluno alvo, participar por escrito à direção, falar com quem agride em separado, mudar a geografia da turma, combinar quem fala com as famílias e reforçar a supervisão nos pontos cegos.

    Por esta ordem, e tudo no mesmo dia. A única coisa que não pode acontecer é a conversa com os dois ao mesmo tempo.

    Fonte: Lei 51/2012

  3. O que dizer ao aluno que está a ser alvo

    Cinco falas para a conversa em privado: abrir sem interrogar, dar confidencialidade com limites, tirar-lhe a culpa, dizer-lhe exatamente o que vai acontecer a seguir — e abrir a porta para ele avisar se houver retaliação.

    Conversa curta e em privado. O objetivo não é apurar tudo o que aconteceu — é o aluno sair dali a saber que um adulto viu e que alguma coisa vai acontecer sem depender dele.

    Podes dizer assim

    • Reparei que tens andado sozinho nos intervalos e que ontem te tiraram a mochila. Não vim perguntar se está tudo bem. Vim dizer-te que reparei.

      Para abrir. Nomear o que se observou vale mais do que «está tudo bem?» — a resposta a essa pergunta é sempre «está».

    • Não te posso prometer que fica só entre nós, porque a escola é obrigada a agir. O que te prometo é que não faço nada sem te dizer primeiro o que vou fazer.

      Dito antes de o aluno contar, nunca depois. A promessa de segredo é a mais fácil de fazer e a que mais destrói a confiança quando tem de ser quebrada.

    • Isto não está a acontecer por causa de nada que tu sejas ou tenhas feito. Não te vou pedir para mudares nada em ti.

      Quase todos os alunos nesta situação já concluíram que a culpa é deles, ou que teriam de ser diferentes. É preciso dizer o contrário em voz alta, mesmo que ele não pergunte.

    • Não te vou pedir para resolveres isto sozinho nem para falares com ele. O que vai acontecer é isto: hoje falo com a direção e hoje falo com ele, em separado — quero que saibas por mim antes de saberes por outra via. Amanhã ficas com lugar ao pé da janela e, se voltar a acontecer alguma coisa, escreves num papel e deixas na minha secretária. Não tens de dizer nada em voz alta.

      Terminar sempre com o que vai acontecer, com dia e com quem. Vaguidade aqui lê-se como «não vai acontecer nada». E o que vai acontecer inclui a conversa com o outro aluno: prometeu não fazer nada sem avisar, e isto é a maior das coisas que vai fazer hoje.

    • É possível que, por eu ter falado, alguma coisa piore para ti durante uns dias. Se isso acontecer, quero saber no mesmo dia — nem que seja um papel na secretária. Não é fazeres queixa: é eu precisar de saber para mudar o que não resultou.

      A retaliação é a consequência mais previsível de o adulto ter intervindo, e é o motivo pelo qual muitos alunos preferem não contar. Não se responde com a garantia de que não vai acontecer — responde-se dizendo que se conta com a hipótese e que há um canal pronto para ela.

    Fonte: APAV

  4. O que dizer ao aluno que agride, em separado

    Quatro falas para a conversa individual: a abertura para quem presenciou, a abertura diferente para quem soube por outra via, dizer que o processo já saiu das suas mãos, e marcar a data em que volta a falar com ele.

    Conversa individual, curta, sem plateia. Não é uma negociação e não é uma conversa sobre versões. Descreva o comportamento, não etiquete a pessoa: «o que fizeste», nunca «tu és».

    Antes de escolher a primeira frase, veja de onde lhe veio a informação. Se presenciou, pode afirmar o facto. Se soube pelo alvo ou por um colega, não pode — o que diz é que lhe foi relatado, que já comunicou à direção, e que é a direção que apura. Afirmar como assente aquilo que não viu é pré-julgar, é injusto se a leitura estiver errada, e contamina o procedimento disciplinar que não lhe compete conduzir. O que não muda nos dois casos: não negoceia, não pede versões para decidir, e a exigência de comportamento vale a partir de hoje.

    Podes dizer assim

    • Chamei-te por causa do que aconteceu na terça, no corredor. Eu vi. Não vim ouvir a tua versão nem discutir se foi a brincar. Vim dizer-te que aquilo acaba hoje.

      Abertura para quando presenciou. Pedir a versão convida à negociação e transmite que ainda há alguma coisa por decidir — quando não há. Diga «acaba hoje» e não «para hoje»: lido em voz alta, «para» lê-se como preposição e a frase desfaz-se.

    • Chamei-te porque me foi relatado o que se passou na terça, no corredor. Não vim apurar se é verdade — quem apura é a direção, e eu já comuniquei. Vim dizer-te uma coisa só: a partir de hoje não te aproximas dele.

      Abertura para o caso mais frequente, em que não presenciou. Exige o mesmo comportamento a partir de agora, sem dar por assente um facto que não viu — e sem tirar à direção o apuramento, que é dela. Investigar não é papel do professor, e isto vale tanto aqui como no resto da ficha.

    • Isto não é uma conversa entre nós os dois que fica por aqui. Já comuniquei à direção, como sou obrigado a fazer. O Estatuto do Aluno prevê medidas para este tipo de comportamento, e quem as aplica não sou eu.

      Tira ao aluno a ideia de que o assunto se resolve consigo, e tira-lhe a si o peso de ser o único adulto no caminho. As medidas corretivas estão no artigo 26.º e as sancionatórias no artigo 28.º.

    • Não te vou pedir para lhe pedires desculpa à frente da turma. O que te peço é que não te aproximes dele nem dos amigos dele nos intervalos. Volto a falar contigo na sexta-feira para ver como correu.

      Uma regra concreta, verificável, e uma data marcada. O pedido de desculpa em público serve a plateia e costuma agravar a situação para quem foi alvo.

    Fonte: Lei 51/2012

  5. O que não dizer, e porquê

    Seis práticas comuns — da mediação frente a frente ao «ignora» e à palestra no pavilhão — com o dano de cada uma e o que fazer em vez disso.
    • Pôr os dois na mesma sala para «resolverem entre eles»

      É a resposta mais frequente e a que colide diretamente com a definição. Bullying é uma relação com desequilíbrio de poder; a mediação pressupõe duas partes em pé de igualdade. Na sala conjunta, quem foi alvo minimiza para não piorar a situação e sai de lá com a mensagem de que também teve culpa.

      Em vez disso: falar com cada um separadamente, no mesmo dia e sem que se cruzem. A responsabilização faz-se pela via disciplinar prevista no Estatuto do Aluno, não por acordo negociado com quem foi agredido.

    • «Ignora», «não ligues», «se não reagires eles cansam-se»

      Transfere a resolução para a pessoa com menos poder na relação e diz-lhe, na prática, que o problema é a reação dela. Deixa também de fora a única parte que a escola consegue mudar de facto: o grupo que assiste.

      Em vez disso: dizer-lhe explicitamente que não tem de resolver nada sozinho, e nomear o que os adultos vão fazer, com dia e com nome.

    • «Diz-lhe que pare», «explica-lhe como te sentes», «tens de te impor»

      Soa a assertividade e é o conselho mais dado em casa e na escola. Num desequilíbrio de poder, confrontar entrega ao agressor exatamente o efeito que ele procura, e à frente da mesma plateia. Na análise das 100 avaliações, o confronto individual não aparece entre os componentes associados a menos vitimação — os dois que aparecem são o envolvimento informal de pares e a informação às famílias.

      Em vez disso: trabalhar a rede à volta do aluno. O envolvimento informal dos pares é um dos dois únicos componentes que a análise das 100 avaliações associou a menos vitimação — o outro é a informação às famílias.

    • «Isto fica entre nós, prometo»

      É uma promessa que a lei não deixa cumprir: perante comportamentos suscetíveis de constituir infração disciplinar, o professor é obrigado a participar à direção. Quebrar a promessa custa mais ao aluno do que nunca a ter feito — perde o único adulto a quem contou.

      Em vez disso: confidencialidade com limites, dita antes de ele falar: «não posso prometer que fica só entre nós; prometo que não faço nada sem te avisar primeiro».

    • Perguntar à turma quem viu, ou pedir ao aluno que conte o que lhe aconteceu

      Transforma o caso em assunto público e entrega ao grupo a informação de que aquele é o aluno do problema. Expõe quem já está exposto, e o apuramento coletivo não produz factos fiáveis — produz alinhamentos.

      Em vez disso: recolher informação individualmente e em privado, e deixar o apuramento formal para o procedimento disciplinar da direção. Investigar não é papel do professor.

    • Responder com uma palestra no pavilhão, ou juntar mais um programa aos que já existem

      Fica marcado na agenda, fica registado, e o efeito no comportamento é próximo de nulo. A análise dos componentes destas 100 avaliações não encontrou relação entre a eficácia de um programa e o número de componentes que ele tem. Acrescentar não melhora.

      Em vez disso: poucas medidas, cumpridas todos os dias. Regras de sala, política escrita da escola, supervisão nos pontos cegos, informação às famílias e trabalho com quem foi alvo — que estão entre os componentes associados a redução — valem mais do que uma sessão por período.

    Fonte: JSP

  6. A quem encaminhar, e por que ordem

    Seis destinos por ordem, do diretor à queixa-crime, com o critério que faz subir cada degrau — e os sinais que não esperam pelo dia seguinte, com os contactos de crise à mão.

    Sobe-se um degrau de cada vez, e só quando o anterior não chega. Dois sinais saltam a escada e comunicam-se à direção no próprio dia: qualquer referência a querer morrer ou a magoar-se, e lesões físicas.

    Se houver risco imediato — o aluno diz que se vai matar, está a magoar-se agora, ou está ferido — ligue 112. Não é caso para escada nenhuma e não espera pelo dia seguinte. Para orientação clínica fora da emergência, SNS 24 — 808 24 24 24, disponível 24 horas por dia, todos os dias. Comunique à direção em paralelo e não fique sozinho com a decisão.

    Fonte: PSP

  7. O que registar por escrito

    Oito pontos, e o decisivo é uma lista de datas: é a repetição que transforma incidentes soltos em bullying, e sem ela o processo disciplinar não anda.

    Factos, não interpretações. «Chamou-lhe X à saída do refeitório, dia 12, à frente de quatro colegas» — nunca «anda a ser gozado». O seu registo documenta o caso; não é o arquivo do conteúdo.

    Fonte: Lei 51/2012

  8. Falar com a família

    Duas chamadas prontas a adaptar: a da família do aluno alvo, e a da família de quem agride — que é a que toda a gente adia.

    Informar as famílias não é cortesia. A informação aos pais é um dos dois únicos componentes que a análise das 100 avaliações associou a menos vitimação. Contacte as duas no mesmo dia, diga factos e não juízos, e peça uma coisa concreta.

    Podes dizer assim

    • Boa tarde, Senhora Dona Marta. Telefono por uma razão concreta: há situações repetidas de gozo e de exclusão dirigidas ao Rodrigo, na turma. Não lhe ligo para pedir que resolva nada — é a escola que tem de resolver. Comuniquei hoje à direção e o serviço de psicologia vai contactá-la. O que lhe peço é uma coisa só: se ele lhe disser em casa alguma coisa que se passe na escola, telefone-me, mesmo que lhe pareça pequeno.

      À família do aluno alvo. O erro comum é acabar com «digam-nos se precisarem de alguma coisa», que devolve o problema a quem não o pode resolver.

    • Boa tarde, Senhor Miranda. Telefono por causa do comportamento do Diogo em relação a um colega. Aconteceu na terça e na quinta, e está descrito por escrito. Não ligo para saber se ele é assim em casa, nem para lhe pedir que o castigue. Ligo por duas razões: para que saiba por mim antes de saber por outra via, e porque isto vai seguir os trâmites do Estatuto do Aluno, com a direção. O que ajuda mesmo é falar com ele hoje e dizer-lhe que sabe.

      À família de quem agride. É a chamada que se adia até já não ter remédio. Feita cedo e com factos, evita a versão de que a escola perseguiu o aluno — e evita que a família ouça a história primeiro pelo filho.

    Fonte: JSP

  9. O que dizer à turma, sem nomear ninguém

    Três falas dirigidas a quem assiste: a regra dita em voz alta já ligada ao que se pede, as três coisas concretas que se lhes pede em vez de confrontar, e o canal para quem tem medo de ser visto a contar.

    Nunca uma sessão sobre o caso, e nunca com o aluno alvo a ter de falar sobre o que lhe aconteceu. O que se faz é dirigir-se a quem assiste: é o grupo maior e o único onde há margem real. A regra vale mais repetida todas as semanas do que dita uma vez com solenidade.

    Podes dizer assim

    • Nesta sala há uma regra que não se discute: ninguém é gozado, excluído nem filmado. Quem está a ver e não faz nada está a ajudar a que aconteça — e já a seguir vos digo o que vos peço, que não é enfrentar ninguém. Não estou a falar de ninguém em concreto: estou a dizer como é que esta sala funciona.

      À turma inteira, em voz alta, e repetida. A regra e o pedido têm de vir na mesma respiração: quem está calado por medo é precisamente o grupo que se quer mobilizar, e se ouvir a acusação sem ouvir logo a saída, fica só com a acusação. As regras de sala estão entre os componentes que as revisões associam a menos agressão. Escreva-a e deixe-a afixada.

    • Não vos peço para enfrentarem ninguém. Isso pode correr mal e não é a vossa função. Peço-vos três coisas: sentarem-se ao lado de quem está sozinho, chamarem-no para o grupo no intervalo, e virem dizer-me. Podem vir dizer-me sem mais ninguém saber.

      É a instrução mais útil que a turma pode receber, e a que dá algo de possível a quem tem medo. O envolvimento informal dos pares é dos poucos componentes associados a menos vitimação.

    • Quem quiser dizer-me alguma coisa e não quiser falar, escreve num papel e deixa-mo na secretária no fim da aula, sem nome. Eu leio tudo.

      Dá um canal a quem teme ser visto a contar. Anuncie-o e cumpra-o: se o primeiro papel não tiver consequência visível, não aparece um segundo.

    Fonte: DGE

Recursos oficiais

Fontes

  1. Campbell — Gaffney, Ttofi & Farrington (2021) — Effectiveness of school-based programs to reduce bullying perpetration and victimization
  2. Lei 51/2012 — Lei n.º 51/2012, de 5 de setembro — Estatuto do Aluno e Ética Escolar (artigo 43.º, n.os 5, 6 e 7: quem é o encarregado de educação em caso de divórcio ou separação e em residência alternada). Publicação oficial, Diário da República n.º 172/2012, 1.ª série.
  3. APAV — APAV — apoio a vítimas de crime e violência
  4. JSP — What works in anti-bullying programs? Analysis of effective intervention components (2021), 85, 37-56
  5. PSP — Programa Escola Segura
  6. DGE — Bullying e Ciberbullying — recursos e orientações

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Cidadania: Direitos Humanos
Atualizada a 28 de julho de 2026.