Há um aluno a ser alvo de bullying
O que dizer ao aluno alvo, o que dizer a quem agride numa conversa em separado, o que pedir a quem assiste — e o que a lei obriga o professor a comunicar no próprio dia.
Se houver perigo
- 112Risco imediato para a vida ou integridade física
- 1411Linha Nacional de Prevenção do Suicídio, para ideação suicida e autolesão, 24 horas
- 808 24 24 24Linha SNS 24, aconselhamento psicológico, 24 horas
9 secções. Abre a de que precisas.
O que costuma acontecer
Os três elementos que separam bullying de conflito, os papéis dentro da turma, e o tamanho real do efeito que a escola pode esperar.Bullying não é conflito, e a diferença não é de vocabulário — é o que decide o que funciona.
- Há desequilíbrio de poder. Força, idade, estatuto no grupo, número de pessoas de cada lado. Dois alunos em pé de igualdade a discutir é conflito, e aí a mediação serve. Aqui não serve.
- Repete-se ao longo do tempo. Um episódio isolado é um episódio. O que faz o dano é a previsibilidade: o aluno sabe, à segunda-feira de manhã, o que o espera.
- É intencional. Não é a brincadeira que correu mal, mesmo quando é essa a explicação apresentada.
A turma inteira está envolvida, a níveis diferentes: quem agride, quem é alvo e quem assiste. E quem assiste divide-se entre os que reforçam, os que defendem e os que ficam calados. É neste grupo que a escola tem mais margem — e é para ele que quase nunca se dirige.
Duas coisas ditas de frente. A meta-análise Campbell, que reuniu 100 avaliações de programas, estima uma redução de cerca de 18 a 19% na agressão e de cerca de 15 a 16% na vitimação: efeitos reais e modestos. E no registo Blueprints, consultado a 28 de julho de 2026, nenhum dos programas dirigidos ao bullying atinge o nível máximo de certificação («Model Plus») — o KiVa e o programa de Olweus estão classificados como «Promising». Nada disto é razão para não fazer nada. É razão para desconfiar de quem lhe prometer que um material resolve isto.
Fonte: Campbell
Nas primeiras 24 horas
Seis ações para amanhã, por ordem: falar com o aluno alvo, participar por escrito à direção, falar com quem agride em separado, mudar a geografia da turma, combinar quem fala com as famílias e reforçar a supervisão nos pontos cegos.Por esta ordem, e tudo no mesmo dia. A única coisa que não pode acontecer é a conversa com os dois ao mesmo tempo.
Fonte: Lei 51/2012
O que dizer ao aluno que está a ser alvo
Cinco falas para a conversa em privado: abrir sem interrogar, dar confidencialidade com limites, tirar-lhe a culpa, dizer-lhe exatamente o que vai acontecer a seguir — e abrir a porta para ele avisar se houver retaliação.Conversa curta e em privado. O objetivo não é apurar tudo o que aconteceu — é o aluno sair dali a saber que um adulto viu e que alguma coisa vai acontecer sem depender dele.
Podes dizer assim
Reparei que tens andado sozinho nos intervalos e que ontem te tiraram a mochila. Não vim perguntar se está tudo bem. Vim dizer-te que reparei.
Para abrir. Nomear o que se observou vale mais do que «está tudo bem?» — a resposta a essa pergunta é sempre «está».
Não te posso prometer que fica só entre nós, porque a escola é obrigada a agir. O que te prometo é que não faço nada sem te dizer primeiro o que vou fazer.
Dito antes de o aluno contar, nunca depois. A promessa de segredo é a mais fácil de fazer e a que mais destrói a confiança quando tem de ser quebrada.
Isto não está a acontecer por causa de nada que tu sejas ou tenhas feito. Não te vou pedir para mudares nada em ti.
Quase todos os alunos nesta situação já concluíram que a culpa é deles, ou que teriam de ser diferentes. É preciso dizer o contrário em voz alta, mesmo que ele não pergunte.
Não te vou pedir para resolveres isto sozinho nem para falares com ele. O que vai acontecer é isto: hoje falo com a direção e hoje falo com ele, em separado — quero que saibas por mim antes de saberes por outra via. Amanhã ficas com lugar ao pé da janela e, se voltar a acontecer alguma coisa, escreves num papel e deixas na minha secretária. Não tens de dizer nada em voz alta.
Terminar sempre com o que vai acontecer, com dia e com quem. Vaguidade aqui lê-se como «não vai acontecer nada». E o que vai acontecer inclui a conversa com o outro aluno: prometeu não fazer nada sem avisar, e isto é a maior das coisas que vai fazer hoje.
É possível que, por eu ter falado, alguma coisa piore para ti durante uns dias. Se isso acontecer, quero saber no mesmo dia — nem que seja um papel na secretária. Não é fazeres queixa: é eu precisar de saber para mudar o que não resultou.
A retaliação é a consequência mais previsível de o adulto ter intervindo, e é o motivo pelo qual muitos alunos preferem não contar. Não se responde com a garantia de que não vai acontecer — responde-se dizendo que se conta com a hipótese e que há um canal pronto para ela.
Fonte: APAV
O que dizer ao aluno que agride, em separado
Quatro falas para a conversa individual: a abertura para quem presenciou, a abertura diferente para quem soube por outra via, dizer que o processo já saiu das suas mãos, e marcar a data em que volta a falar com ele.Conversa individual, curta, sem plateia. Não é uma negociação e não é uma conversa sobre versões. Descreva o comportamento, não etiquete a pessoa: «o que fizeste», nunca «tu és».
Antes de escolher a primeira frase, veja de onde lhe veio a informação. Se presenciou, pode afirmar o facto. Se soube pelo alvo ou por um colega, não pode — o que diz é que lhe foi relatado, que já comunicou à direção, e que é a direção que apura. Afirmar como assente aquilo que não viu é pré-julgar, é injusto se a leitura estiver errada, e contamina o procedimento disciplinar que não lhe compete conduzir. O que não muda nos dois casos: não negoceia, não pede versões para decidir, e a exigência de comportamento vale a partir de hoje.
Podes dizer assim
Chamei-te por causa do que aconteceu na terça, no corredor. Eu vi. Não vim ouvir a tua versão nem discutir se foi a brincar. Vim dizer-te que aquilo acaba hoje.
Abertura para quando presenciou. Pedir a versão convida à negociação e transmite que ainda há alguma coisa por decidir — quando não há. Diga «acaba hoje» e não «para hoje»: lido em voz alta, «para» lê-se como preposição e a frase desfaz-se.
Chamei-te porque me foi relatado o que se passou na terça, no corredor. Não vim apurar se é verdade — quem apura é a direção, e eu já comuniquei. Vim dizer-te uma coisa só: a partir de hoje não te aproximas dele.
Abertura para o caso mais frequente, em que não presenciou. Exige o mesmo comportamento a partir de agora, sem dar por assente um facto que não viu — e sem tirar à direção o apuramento, que é dela. Investigar não é papel do professor, e isto vale tanto aqui como no resto da ficha.
Isto não é uma conversa entre nós os dois que fica por aqui. Já comuniquei à direção, como sou obrigado a fazer. O Estatuto do Aluno prevê medidas para este tipo de comportamento, e quem as aplica não sou eu.
Tira ao aluno a ideia de que o assunto se resolve consigo, e tira-lhe a si o peso de ser o único adulto no caminho. As medidas corretivas estão no artigo 26.º e as sancionatórias no artigo 28.º.
Não te vou pedir para lhe pedires desculpa à frente da turma. O que te peço é que não te aproximes dele nem dos amigos dele nos intervalos. Volto a falar contigo na sexta-feira para ver como correu.
Uma regra concreta, verificável, e uma data marcada. O pedido de desculpa em público serve a plateia e costuma agravar a situação para quem foi alvo.
Fonte: Lei 51/2012
O que não dizer, e porquê
Seis práticas comuns — da mediação frente a frente ao «ignora» e à palestra no pavilhão — com o dano de cada uma e o que fazer em vez disso.Pôr os dois na mesma sala para «resolverem entre eles»
É a resposta mais frequente e a que colide diretamente com a definição. Bullying é uma relação com desequilíbrio de poder; a mediação pressupõe duas partes em pé de igualdade. Na sala conjunta, quem foi alvo minimiza para não piorar a situação e sai de lá com a mensagem de que também teve culpa.
Em vez disso: falar com cada um separadamente, no mesmo dia e sem que se cruzem. A responsabilização faz-se pela via disciplinar prevista no Estatuto do Aluno, não por acordo negociado com quem foi agredido.
«Ignora», «não ligues», «se não reagires eles cansam-se»
Transfere a resolução para a pessoa com menos poder na relação e diz-lhe, na prática, que o problema é a reação dela. Deixa também de fora a única parte que a escola consegue mudar de facto: o grupo que assiste.
Em vez disso: dizer-lhe explicitamente que não tem de resolver nada sozinho, e nomear o que os adultos vão fazer, com dia e com nome.
«Diz-lhe que pare», «explica-lhe como te sentes», «tens de te impor»
Soa a assertividade e é o conselho mais dado em casa e na escola. Num desequilíbrio de poder, confrontar entrega ao agressor exatamente o efeito que ele procura, e à frente da mesma plateia. Na análise das 100 avaliações, o confronto individual não aparece entre os componentes associados a menos vitimação — os dois que aparecem são o envolvimento informal de pares e a informação às famílias.
Em vez disso: trabalhar a rede à volta do aluno. O envolvimento informal dos pares é um dos dois únicos componentes que a análise das 100 avaliações associou a menos vitimação — o outro é a informação às famílias.
«Isto fica entre nós, prometo»
É uma promessa que a lei não deixa cumprir: perante comportamentos suscetíveis de constituir infração disciplinar, o professor é obrigado a participar à direção. Quebrar a promessa custa mais ao aluno do que nunca a ter feito — perde o único adulto a quem contou.
Em vez disso: confidencialidade com limites, dita antes de ele falar: «não posso prometer que fica só entre nós; prometo que não faço nada sem te avisar primeiro».
Perguntar à turma quem viu, ou pedir ao aluno que conte o que lhe aconteceu
Transforma o caso em assunto público e entrega ao grupo a informação de que aquele é o aluno do problema. Expõe quem já está exposto, e o apuramento coletivo não produz factos fiáveis — produz alinhamentos.
Em vez disso: recolher informação individualmente e em privado, e deixar o apuramento formal para o procedimento disciplinar da direção. Investigar não é papel do professor.
Responder com uma palestra no pavilhão, ou juntar mais um programa aos que já existem
Fica marcado na agenda, fica registado, e o efeito no comportamento é próximo de nulo. A análise dos componentes destas 100 avaliações não encontrou relação entre a eficácia de um programa e o número de componentes que ele tem. Acrescentar não melhora.
Em vez disso: poucas medidas, cumpridas todos os dias. Regras de sala, política escrita da escola, supervisão nos pontos cegos, informação às famílias e trabalho com quem foi alvo — que estão entre os componentes associados a redução — valem mais do que uma sessão por período.
Fonte: JSP
A quem encaminhar, e por que ordem
Seis destinos por ordem, do diretor à queixa-crime, com o critério que faz subir cada degrau — e os sinais que não esperam pelo dia seguinte, com os contactos de crise à mão.Sobe-se um degrau de cada vez, e só quando o anterior não chega. Dois sinais saltam a escada e comunicam-se à direção no próprio dia: qualquer referência a querer morrer ou a magoar-se, e lesões físicas.
Se houver risco imediato — o aluno diz que se vai matar, está a magoar-se agora, ou está ferido — ligue 112. Não é caso para escada nenhuma e não espera pelo dia seguinte. Para orientação clínica fora da emergência, SNS 24 — 808 24 24 24, disponível 24 horas por dia, todos os dias. Comunique à direção em paralelo e não fique sozinho com a decisão.
Fonte: PSP
O que registar por escrito
Oito pontos, e o decisivo é uma lista de datas: é a repetição que transforma incidentes soltos em bullying, e sem ela o processo disciplinar não anda.Factos, não interpretações. «Chamou-lhe X à saída do refeitório, dia 12, à frente de quatro colegas» — nunca «anda a ser gozado». O seu registo documenta o caso; não é o arquivo do conteúdo.
Fonte: Lei 51/2012
Falar com a família
Duas chamadas prontas a adaptar: a da família do aluno alvo, e a da família de quem agride — que é a que toda a gente adia.Informar as famílias não é cortesia. A informação aos pais é um dos dois únicos componentes que a análise das 100 avaliações associou a menos vitimação. Contacte as duas no mesmo dia, diga factos e não juízos, e peça uma coisa concreta.
Podes dizer assim
Boa tarde, Senhora Dona Marta. Telefono por uma razão concreta: há situações repetidas de gozo e de exclusão dirigidas ao Rodrigo, na turma. Não lhe ligo para pedir que resolva nada — é a escola que tem de resolver. Comuniquei hoje à direção e o serviço de psicologia vai contactá-la. O que lhe peço é uma coisa só: se ele lhe disser em casa alguma coisa que se passe na escola, telefone-me, mesmo que lhe pareça pequeno.
À família do aluno alvo. O erro comum é acabar com «digam-nos se precisarem de alguma coisa», que devolve o problema a quem não o pode resolver.
Boa tarde, Senhor Miranda. Telefono por causa do comportamento do Diogo em relação a um colega. Aconteceu na terça e na quinta, e está descrito por escrito. Não ligo para saber se ele é assim em casa, nem para lhe pedir que o castigue. Ligo por duas razões: para que saiba por mim antes de saber por outra via, e porque isto vai seguir os trâmites do Estatuto do Aluno, com a direção. O que ajuda mesmo é falar com ele hoje e dizer-lhe que sabe.
À família de quem agride. É a chamada que se adia até já não ter remédio. Feita cedo e com factos, evita a versão de que a escola perseguiu o aluno — e evita que a família ouça a história primeiro pelo filho.
Fonte: JSP
O que dizer à turma, sem nomear ninguém
Três falas dirigidas a quem assiste: a regra dita em voz alta já ligada ao que se pede, as três coisas concretas que se lhes pede em vez de confrontar, e o canal para quem tem medo de ser visto a contar.Nunca uma sessão sobre o caso, e nunca com o aluno alvo a ter de falar sobre o que lhe aconteceu. O que se faz é dirigir-se a quem assiste: é o grupo maior e o único onde há margem real. A regra vale mais repetida todas as semanas do que dita uma vez com solenidade.
Podes dizer assim
Nesta sala há uma regra que não se discute: ninguém é gozado, excluído nem filmado. Quem está a ver e não faz nada está a ajudar a que aconteça — e já a seguir vos digo o que vos peço, que não é enfrentar ninguém. Não estou a falar de ninguém em concreto: estou a dizer como é que esta sala funciona.
À turma inteira, em voz alta, e repetida. A regra e o pedido têm de vir na mesma respiração: quem está calado por medo é precisamente o grupo que se quer mobilizar, e se ouvir a acusação sem ouvir logo a saída, fica só com a acusação. As regras de sala estão entre os componentes que as revisões associam a menos agressão. Escreva-a e deixe-a afixada.
Não vos peço para enfrentarem ninguém. Isso pode correr mal e não é a vossa função. Peço-vos três coisas: sentarem-se ao lado de quem está sozinho, chamarem-no para o grupo no intervalo, e virem dizer-me. Podem vir dizer-me sem mais ninguém saber.
É a instrução mais útil que a turma pode receber, e a que dá algo de possível a quem tem medo. O envolvimento informal dos pares é dos poucos componentes associados a menos vitimação.
Quem quiser dizer-me alguma coisa e não quiser falar, escreve num papel e deixa-mo na secretária no fim da aula, sem nome. Eu leio tudo.
Dá um canal a quem teme ser visto a contar. Anuncie-o e cumpra-o: se o primeiro papel não tiver consequência visível, não aparece um segundo.
Fonte: DGE
Recursos oficiais
- Plano Escola Sem Bullying, Escola Sem ViolênciaMateriais oficiais separados por destinatário — alunos, famílias, docentes e assistentes operacionais. Útil quando é preciso entregar alguma coisa a cada um destes públicos ao mesmo tempo.Sítio com folhetos e vídeos · ME
- Bullying e ciberbullying — recursos e orientações da DGEO enquadramento oficial que a escola é suposto seguir, com manuais de atividades. Vale a pena para sustentar uma proposta perante a direção.Documentos e manuais · DGE
- Apoio da APAV a vítimas de crimeEncaminhamento para apoio especializado quando a situação tem contornos criminais ou a família precisa de acompanhamento fora da escola.Serviço de apoio · APAV
- Programa Escola SeguraA equipa policial afeta a cada escola. Aciona-se quando os factos podem constituir crime ou envolvem pessoas de fora da comunidade escolar.Contacto direto do agente de referência · PSP
- Estratégia Nacional de Educação para a CidadaniaAs oito dimensões obrigatórias e o que o plano de turma tem de contemplar. É a âncora curricular de qualquer sessão que se proponha em conselho de turma.Resolução do Conselho de Ministros · DRE
Fontes
- Campbell — Gaffney, Ttofi & Farrington (2021) — Effectiveness of school-based programs to reduce bullying perpetration and victimization
- Lei 51/2012 — Lei n.º 51/2012, de 5 de setembro — Estatuto do Aluno e Ética Escolar (artigo 43.º, n.os 5, 6 e 7: quem é o encarregado de educação em caso de divórcio ou separação e em residência alternada). Publicação oficial, Diário da República n.º 172/2012, 1.ª série.
- APAV — APAV — apoio a vítimas de crime e violência
- JSP — What works in anti-bullying programs? Analysis of effective intervention components (2021), 85, 37-56
- PSP — Programa Escola Segura
- DGE — Bullying e Ciberbullying — recursos e orientações
1.º ciclo · 2.º ciclo · 3.º ciclo · Secundário
Cidadania: Direitos Humanos
Atualizada a 28 de julho de 2026.