Um aluno tem ansiedade ou deixou de vir à escola

Distingue recusa escolar de faltas injustificadas e dá o plano de regresso gradual, com as frases literais para o aluno, para a família e o ponto exato em que se encaminha.

Se houver perigo

9 secções. Abre a de que precisas.

  1. Recusa escolar não é o mesmo que faltas injustificadas

    A diferença entre o aluno que fica em casa por ansiedade e o aluno que falta sem os pais saberem — e porque é que confundi-las agrava.

    Antes de fazer o que quer que seja, separe estas duas situações. Na pauta parecem a mesma coisa — o aluno não está lá — mas pedem respostas opostas.

    • Recusa escolar. O aluno quer vir e não consegue. Fica em casa com conhecimento dos pais, muitas vezes depois de uma manhã de choro, dores de barriga ou vómitos. Ao fim de semana está bem. Muitas vezes tem bom aproveitamento e preocupa-se com as faltas. O que o prende em casa é ansiedade: medo de ser avaliado, de falar em público, de se separar da família, ou de um sítio concreto — o refeitório, o balneário, o recreio.
    • Absentismo / faltas injustificadas. O aluno não quer vir. Falta sem os pais saberem, ou sai a meio do dia, e está noutro sítio a fazer outra coisa. Não há angústia. Há desinteresse, ou um problema fora da escola.

    Há uma pergunta a fazer antes de tudo o resto: o que o assusta está dentro da escola? Se o medo tem nome — um colega, um grupo, um adulto — ou se há alguma coisa a circular online, isso não é ansiedade para gerir com horários. É um problema para resolver primeiro; o plano de regresso vem depois.

    No pré-escolar e no 1.º ciclo isto aparece quase sempre como ansiedade de separação: agarra-se ao adulto à porta, chora ao portão, pergunta a toda a hora a que horas o vêm buscar.

    Confundir as duas agrava. Se tratar recusa escolar como indisciplina — participação, ameaça de retenção, sanção — acrescenta medo a quem já está com medo, e o aluno afasta-se mais. Se tratar absentismo como ansiedade, alivia a exigência a quem precisa exatamente do contrário.

    O seu papel tem um limite e o limite é claro. Pode notar o padrão, acolher, baixar a temperatura da sala, adaptar a avaliação, falar com a família e sinalizar. Não pode diagnosticar uma perturbação de ansiedade nem tratá-la. Isso é trabalho de psicólogo.

    Fonte: Campbell

  2. O que se vê na sala antes de começarem as faltas

    Seis coisas observáveis — dores de barriga à hora do teste, idas repetidas à casa de banho, faltas concentradas nos mesmos dias.

    Nada disto é um diagnóstico e nenhum destes sinais, sozinho, quer dizer alguma coisa. Vale a pena anotá-los porque, juntos e repetidos, costumam aparecer semanas antes da primeira falta.

    • Queixas físicas que aparecem sempre à mesma horaDores de barriga, dor de cabeça, náuseas, coração acelerado, tonturas — na véspera ou na manhã de testes e apresentações. Desaparecem ao fim de semana e nas férias.
    • Idas repetidas à casa de banho ou ao gabinete de saúdeQuase sempre nos mesmos tempos letivos. Repare em qual é a disciplina e a que horas acontece.
    • Evita tudo o que envolva ser olhadoNão lê em voz alta, não vai ao quadro, adoece no dia da apresentação, fica na sala ao intervalo, não se senta no refeitório.
    • As faltas concentram-se, não se espalhamSegundas-feiras, dias de teste, dias de Educação Física. E a família justifica ou confirma a falta.
    • Continua a entregar trabalhos mas não apareceEstuda em casa e preocupa-se com as notas. Isso aponta para ansiedade, não para desinteresse.
    • No pré-escolar e no 1.º ciclo, a despedida à portaAgarra-se ao adulto, chora ao portão, mas acalma dez a quinze minutos depois de a família sair. Anote se acalma ou não — é essa a informação útil.

    Fonte: PARENEE

  3. Nas primeiras 24 horas

    Seis coisas para amanhã, por esta ordem: escrever o padrão de faltas, falar a sós dois minutos, verificar com o conselho de turma se a causa está dentro da escola, telefonar à família, informar o diretor de turma, combinar uma saída discreta.

    Nada disto exige formação clínica nem uma hora livre. Cabe num intervalo.

    Fonte: DGE

  4. O que dizer

    Cinco frases prontas: a abertura da primeira conversa, o que dizer quando ele se cala e a alternativa à apresentação de amanhã.

    Ditas com calma e sem plateia. O objetivo não é fazê-lo desabafar — é fazer com que a escola deixe de ser o sítio onde se sente apanhado.

    Podes dizer assim

    • Reparei que faltaste na terça e na quinta, e que nos dois dias tínhamos teste. Não estás em sarilhos. Só queria perceber como é que te posso facilitar as coisas.

      Primeira conversa, a sós, no fim da aula. Diga o que observou em concreto, não «tenho notado que andas em baixo».

    • Não tens de me explicar tudo. Diz-me só uma coisa que torna a manhã mais difícil.

      Quando o aluno se cala ou encolhe os ombros. Pedir uma coisa é muito mais fácil de responder do que pedir a história toda. Se a resposta apontar para um colega, um adulto ou para alguma coisa que circula online, pare o plano de regresso aqui e comunique à direção.

    • Amanhã não tens de apresentar à frente da turma. Podes gravar em casa, ou apresentar só a mim no intervalo. A nota é a mesma.

      Quando o medo é de falar em público. Diga a alternativa concreta hoje, não «depois vemos».

    • Se a meio da aula precisares de sair, pousa o estojo aqui na ponta da mesa e sais. Não tens de pedir nem de explicar.

      Para combinar o sinal de saída. Repita-o no dia seguinte, à porta, para ele saber que se mantém em pé.

    • Amanhã vens só às duas primeiras aulas. Depois vais para casa. Combinámos assim, está tudo bem.

      Quando já houve faltas seguidas e o regresso vai ser por partes. Só depois de acordado com o diretor de turma e a família — mas quem diz isto ao aluno deve ser alguém que ele conhece.

    Fonte: OMS

  5. O que não dizer, e porquê

    Seis erros comuns, incluindo dois que parecem bondade: dispensá-lo de tudo o que lhe custa e prometer que fica entre os dois.

    Os dois primeiros são frases. Os quatro seguintes são decisões — e três delas costumam ser tomadas com a melhor das intenções.

    • «Isso passa», «Todos ficamos nervosos», «Não é nada de especial»

      O aluno já reparou que os colegas não faltam por isto. Ouvir que não é nada confirma-lhe que ninguém percebe, e da próxima vez não diz nada.

      Em vez disso: descreva o que viu e diga o que vai fazer: «vi que ficaste branco antes do teste; amanhã fazes na sala ao lado, sozinho».

    • «Acalma-te», «Respira fundo que já passa»

      Mandar acalmar acrescenta a sensação de estar a falhar também nisso, e a ativação sobe em vez de descer.

      Em vez disso: fique ao lado, fale devagar e respire devagar com ele, em vez de lhe pedir que respire.

    • Dispensá-lo de tudo o que lhe custa, por tempo indeterminado

      Alívio imediato, agravamento a prazo. Cada evitamento bem-sucedido ensina que só se sobrevive fugindo, a confiança dele desce e a lista de coisas evitadas cresce.

      Em vez disso: reduza a exigência com data e degrau seguinte: «esta semana apresentas só a mim; na próxima, a três colegas».

    • Marcar as faltas como injustificadas e ameaçar com a retenção para o obrigar a vir

      Acrescenta medo a quem está em casa por medo. Torna o regresso mais difícil, não mais fácil.

      Em vez disso: trate a questão das faltas com o diretor de turma e a família em separado, e mantenha a sua conversa com o aluno focada no regresso.

    • Pedir-lhe que explique à turma porque tem andado a faltar

      Expõe exatamente aquilo de que ele tem medo e transforma o regresso num acontecimento público.

      Em vez disso: receba-o como se fosse um dia igual aos outros e trate do assunto a sós, se e quando ele quiser.

    • Prometer «isto fica entre nós»

      Não pode cumprir. Se houver risco, tem de comunicar — e uma promessa quebrada custa-lhe a confiança do aluno e a confiança dele em qualquer adulto da escola.

      Em vez disso: diga a verdade: «o que me contares não vai correr a escola; se eu achar que estás em perigo, tenho de falar com quem te pode ajudar, e aviso-te antes de o fazer».

    Fonte: BRAT

  6. Falar com a família

    Cinco frases para a chamada com o encarregado de educação, incluindo a mais difícil de todas: vir mesmo nos dias maus — e só depois de confirmado que não é a escola a causa do medo.

    Telefone, não escreva. Muitas famílias estão exaustas das manhãs e à espera de ser censuradas. O plano tem de fixar três coisas: a que horas o aluno entra, quem o recebe à porta e quando é que aumenta.

    Antes de fazer esta chamada tem de estar despachada a pergunta do passo 3 das primeiras 24 horas: o que o assusta está dentro da escola? Enquanto isso não estiver verificado, não peça à família que insista na presença. Se houver bullying, conflito com um adulto ou alguma coisa a circular online, pedir a presença é mandar a criança de volta ao sítio onde está a ser magoada — e a família cumpre, porque foi a escola que pediu.

    Podes dizer assim

    • Não estou a ligar por causa das faltas. Estou a ligar porque acho que ele está a passar um mau bocado e queria perceber como são as manhãs aí em casa.

      Abertura da chamada. Diga isto antes de qualquer outra coisa, senão a conversa fecha-se logo.

    • O objetivo não é ele vir um dia inteiro amanhã. É vir todos os dias, mesmo que seja pouco tempo, e ir aumentando.

      Quando a família diz que ele não aguenta um dia de escola. Baixa a fasquia sem desistir dela.

    • Preciso que ele venha à escola mesmo nos dias maus, nem que seja meia hora. Se ficar em casa sempre que o dia é mau, os dias maus tendem a aumentar.

      Só diga isto depois de ter verificado que não é a escola a causa do medo — sem essa verificação, esta frase faz mais mal do que bem. Feita a verificação, é o ponto mais importante e o mais difícil: diga-o com clareza e sem culpabilizar. Se a família responder que ele não sai da cama ou deixou de comer, pare aqui: isso já não se resolve com horários, encaminhe. E se for a família a contar que há um colega, um adulto ou alguma coisa online por trás disto, pare também: nesse caso não se insiste na presença, resolve-se o problema.

    • Vou pedir ao diretor de turma que o caso seja visto pelo serviço de psicologia da escola. Não é um processo disciplinar e não fica no registo dele.

      Muitas famílias recusam por recearem que «fique marcado». Antecipe o receio antes de ele ser dito.

    • Se isto já dura há mais de duas semanas, valia a pena falarem também com o médico de família. Eu consigo adaptar a escola, mas não tenho competência para avaliar isto.

      Fim da chamada. Dizer onde acaba o seu papel protege o aluno e protege-o a si.

    Fonte: DGS

  7. Sinais que exigem encaminhamento

    Cinco situações em que deixa de ser acomodar e passa a ser comunicar no mesmo dia.

    Nenhum destes sinais é para o professor avaliar, interpretar ou aprofundar. São gatilhos: se acontecer, comunica-se.

    • Faltou praticamente todos os dias durante duas semanasDuas semanas é o ponto a partir do qual o regresso deixa de se resolver com ajustes de sala.
    • Diz ou escreve que não quer viver, que desaparecia, que ninguém dava pela falta deleNão avalie, não use escalas, não peça pormenores. Comunique hoje ao diretor de turma e ao psicólogo da escola. Se for fora de horas e houver risco imediato, 112. O número para dar à família é o SNS 24 — 808 24 24 24, opção de aconselhamento psicológico, 24 horas, gratuito.
    • Crises de pânico repetidas na escolaHiperventilação, tremores, sensação de desmaio — mais do que uma vez. Um episódio isolado acalma-se na sala ao lado; repetidos precisam de avaliação.
    • Deixou de comer, emagreceu de forma visível, ou aparece com marcas nos braçosSai do âmbito da ansiedade escolar. Diretor de turma e equipa de saúde escolar, no mesmo dia. Se houver risco imediato, 112; o número para dar à família é o SNS 24 — 808 24 24 24.
    • O que o assusta é alguém — na escola ou em casaSe o medo tem nome e é um colega ou um grupo de colegas, isto é bullying: comunique à direção e siga essa ficha, não o plano de regresso. Se for um adulto da escola, comunique à direção no mesmo dia e não confronte ninguém — o professor comunica, não investiga. Se houver medo de um adulto de casa, sinais de negligência, ou se ele não quiser voltar a casa, deixou de ser recusa escolar: aplica-se o dever de comunicação previsto na lei de proteção de crianças e jovens em perigo — e, também aqui, o professor comunica, não investiga.

    Fonte: OPP

  8. A quem encaminhar, e por que ordem

    A ordem dentro da escola — diretor de turma, SPO, EMAEI — e os dois contactos de fora que se dão à família, não se marcam por ela.

    Dentro da escola há uma ordem e ela não se salta. Fora da escola, o professor não marca nada: informa a família.

    Fonte: DGE

  9. Acompanhar depois

    O regresso gradual em cinco tempos, incluindo o que fazer na semana em que ele recai e o prazo a partir do qual se muda de plano.

    Este plano pressupõe que já se verificou que a causa do medo não está dentro da escola. Se estiver, não é este o plano: é a ficha do problema em causa.

    O que tem apoio na investigação é o regresso gradual com previsibilidade. Sendo honesto sobre a força dessa evidência: a revisão Campbell encontrou apenas oito estudos, com 435 alunos no total, e as intervenções cognitivo-comportamentais aumentaram a assiduidade mas não reduziram a ansiedade medida. Ou seja — o plano traz o aluno de volta à escola; não lhe tira o medo. De quem trata do medo é o psicólogo.

    1. Dias 1 a 3Presença curta e garantida. Duas aulas, sempre as mesmas (no pré-escolar e 1.º ciclo, a primeira parte da manhã), sempre com o mesmo adulto a recebê-lo à entrada. Sem testes, sem apresentações e sem comentários sobre o regresso.
    2. Semana 1Previsibilidade acima de tudo. O aluno sabe na véspera o que acontece em cada tempo: o que se faz, onde se senta, se há avaliação. As surpresas são o que o faz recuar.
    3. Semanas 2 a 4Subir um degrau de cada vez, e só um. Mais um tempo letivo, ou a disciplina difícil, ou o intervalo no recreio — nunca as três coisas na mesma semana.
    4. Na semana em que houver uma recaídaVolta-se ao último degrau que ele conseguia, não à estaca zero. Uma semana má não anula o plano. Regista-se, comunica-se ao SPO e continua-se. Se a recaída coincidir sempre com o mesmo tempo letivo, o mesmo espaço ou os mesmos colegas, isso não é recaída — é a causa a aparecer. Comunique.
    5. Ao fim de 4 a 6 semanasSe a assiduidade não subiu, o problema não é o horário. Leve o caso de volta ao SPO e à EMAEI e peça reavaliação das medidas. Não repita o mesmo plano por mais um mês.

    Fonte: Campbell

Recursos oficiais

Fontes

  1. Campbell — Psychosocial interventions for school refusal with primary and secondary school students (Maynard et al., 2015) — texto integral verificado em ERIC ED573433: confirma 8 estudos e 435 participantes, TCC aumenta a assiduidade sem efeito significativo na ansiedade, e confirma no capítulo 1.1 os três critérios que separam recusa escolar de faltas injustificadas (sofrimento emocional associado à ida à escola; ficar em casa com conhecimento dos pais, ao contrário de quem falta sem os pais saberem; ausência de características de perturbação do comportamento)
  2. PARENEE — Orientações gerais para docentes que trabalham com estudantes com problemas do foro Psicológico e Psiquiátrico (Alice Mendes, novembro 2023) — PDF lido integralmente; documento dirigido a docentes do ENSINO SUPERIOR, ressalva a manter em nota editorial
  3. DGE — Educação Inclusiva — serviços de psicologia e orientação e equipas multidisciplinares
  4. OMS — Psychological First Aid: Guide for Field Workers
  5. BRAT — Family accommodation in pediatric anxiety: Relations with avoidance and self-efficacy (Kitt, Lewis, Galbraith, Abend, Smith, Lebowitz, Pine & Gee, 2022) — verificado: maior acomodação familiar associa-se a maior evitamento e a menor autoeficácia da criança
  6. DGS — Programa Nacional de Saúde Escolar
  7. OPP — Ordem dos Psicólogos Portugueses — recursos para a comunidade educativa

Pré-escolar · 1.º ciclo · 2.º ciclo · 3.º ciclo · Secundário
Cidadania: Saúde
Atualizada a 28 de julho de 2026.