A Ponta do Pão

uma história para Simão · 6-8 anos

Para o adulto — antes e depois de lerComo preparar a leitura, três perguntas para a conversa e o que esperar nos dias seguintes. Vale a pena abrir antes da primeira leitura.

Antes de ler

Este livro diz a palavra «morreu» e explica o que ela significa: o corpo parou de funcionar, não dói, e não volta. É intencional — as crianças de 6-8 anos precisam de linguagem literal, porque expressões como «foi dormir» ou «partiu» criam medos novos (de adormecer, de viagens). Leia devagar; as reticências são pausas para respirar, não gralhas. Se o seu filho interromper com perguntas, pare e responda — a interrupção é o livro a funcionar. Se não souber responder, diga «não sei, mas vou pensar contigo»: nesta história há um pai que também não soube à primeira, e não faz dele um mau pai. E se o adulto chorar durante a leitura, pode dizê-lo em voz alta: «Estou triste porque também tenho saudades.» Ver um adulto triste e inteiro ao mesmo tempo é uma das coisas mais tranquilizadoras que uma criança em luto pode ver.

Três perguntas para a conversa

  • O que é que tu e o avô faziam só os dois? Conta-me como se eu não soubesse nada.
  • Tens alguma pergunta guardada nos bolsos, como o Simão? Podes dizê-la mesmo que pareça esquisita — eu não me assusto com perguntas.
  • Qual podia ser o nosso «pão de sábado» — uma coisa pequena, só nossa, para fazermos sempre que a saudade apertar?

O que pode acontecer depois

O luto das crianças funciona em doses: o seu filho pode chorar, e cinco minutos depois estar a brincar e a rir — isto não é insensibilidade nem esquecimento, é a forma saudável de processar aos 6-8 anos. Espere perguntas repetidas («mas ele volta mesmo nunca?») durante semanas: a criança está a testar a irreversibilidade, e a resposta calma e igual, todas as vezes, é o que consolida a segurança. É normal haver curiosidade muito concreta sobre o corpo, o caixão ou o cemitério — parece mórbida aos adultos e é desenvolvimento normal. Podem aparecer regressões passageiras (dormir mal, querer companhia à noite, mais birras, queixas de barriga) e brincadeiras sobre morte e funerais — brincar é a língua em que as crianças pensam. Manter as rotinas (escola, horários, o desporto, o ritual do livro) é a intervenção mais estabilizadora que existe. E se a criança quiser participar em rituais de despedida, pode e deve — com preparação prévia sobre o que vai ver e um adulto disponível só para ela.

Sinais de que vale a pena procurar ajuda profissional

  • Tristeza intensa, isolamento ou desinteresse pelas brincadeiras e pelos amigos que se mantêm praticamente todos os dias, durante vários meses, ou que pioram em vez de aliviar.
  • Culpa persistente («foi por minha causa», «eu podia ter feito alguma coisa») que não cede mesmo depois de o adulto dizer claramente que não teve culpa nenhuma.
  • Recusa total e prolongada em falar do avô, ou evitamento intenso de tudo o que o lembra (lugares, fotografias, o nome), meses depois da morte.
  • Alterações de sono, apetite ou rendimento escolar que se prolongam e interferem com o dia a dia, ou regressões que não recuperam (voltar a fazer chichi na cama de forma continuada, por exemplo).
  • Qualquer frase sobre querer morrer ou querer «ir ter com o avô» — falar disto com o médico de família ou pedir ajuda psicológica de imediato, sem esperar para ver.

Fontes

  • Ordem dos Psicólogos Portugueses — Vamos Falar Sobre Luto
  • Instituto de Apoio à Criança — Linha SOS Criança 116 111
  • APELO — Associação de Apoio à Pessoa em Luto — materiais sobre o luto na infância
01
Ilustração da página 1
Ao sábado, o mundo começava mais cedo na aldeia do avô Vicente. Simão e o avô desciam a rua da Fonte antes de toda a gente, quando as portadas ainda estavam fechadas e o cheiro do forno já andava à solta. O avô assobiava a música do caminho — sempre a mesma — e os melros respondiam-lhe do alto da figueira. Simão ainda não sabia assobiar. — Deixa lá — dizia o avô. — O assobio chega quando tiver de chegar. Na padaria, compravam uma carcaça quente, e o avô entregava-a a Simão: — Com a mão por baixo, como quem leva um passarinho. Depois sentavam-se no muro e partiam o pão. — Uma ponta para ti, uma ponta para mim. Era assim todos os sábados. Simão tinha a certeza de que ia ser assim para sempre.
02
Ilustração da página 2
Numa terça-feira de outubro, a mãe entrou no quarto de Simão ainda de pijama, com a voz rouca de quem passou a noite ao telefone. Sentou-se na cama e segurou-lhe as mãos. — Simão, o avô Vicente morreu esta noite. Morreu. A palavra caiu no meio do quarto e ficou ali, enorme, sem caber em lado nenhum. — Morreu como? — perguntou Simão. — E o pão de sábado? Quem é que vai comprar o pão? A mãe olhou para o pai, parado à porta. O pai olhou para a mãe. Nenhum dos dois sabia por onde começar.
03
Ilustração da página 3
Nos dias seguintes, a casa encheu-se de gente de roupa escura, de sopa que ninguém comia, de vozes baixinhas. E dentro de Simão cresceu uma coisa com muitos nomes ao mesmo tempo. Tinha raiva. Raiva do sábado, raiva do assobio, raiva de o mundo continuar a andar como se nada fosse. Tinha medo — um medo novo, de fazer perguntas e de ouvir as respostas. E tinha uma tristeza tão pesada que o fazia andar devagar, como se levasse pedras nos bolsos do casaco. Quando a prima se riu na cozinha, Simão teve vontade de gritar. Depois teve vontade de chorar. Depois não teve vontade de nada — e foi ver a rua pela janela até escurecer.
04
Ilustração da página 4
Uma noite, ao jantar, Simão tentou tirar uma pergunta do bolso. — Pai... o avô volta quando? O pai ficou muito tempo a olhar para o prato. Depois respondeu depressa, como quem foge: — Não te preocupes com isso agora, filho. Mas a pergunta não desapareceu. Voltou para o bolso de Simão, ainda mais pesada do que antes. Nessa noite, Simão adormeceu com os bolsos cheios.
05
Ilustração da página 5
No dia seguinte, à noite, a mãe veio deitar-se ao lado dele, como o avô fazia quando havia trovoada. Estiveram calados um bocadinho. Depois fizeram o jogo do avô: adivinhar os barulhos da noite. Um cão. Um carro ao longe. O frigorífico a cantar baixinho. E foi aí, no meio do jogo, que a pergunta saiu — baixinho, quase sem barulho: — Mãe... o que é isso, morrer? A mãe respirou fundo. Não fugiu. — Morrer é quando o corpo pára de funcionar de vez. O corpo do avô era muito velho e estava gasto de tantos anos — foi por isso que o coração dele parou. Não é como as tuas constipações nem as febres: dessas, as pessoas tratam-se e curam-se. E quando o corpo pára de vez, já não dói nada. O avô não sente frio, nem medo, nem dores. — E depois arranja-se? — ... Não, filho. Morrer não se arranja. O avô não volta. Nem amanhã, nem no Natal, nem quando tu fores grande.
06
Ilustração da página 6
Simão ficou calado, a arrumar aquelas palavras lá dentro. Depois perguntou, mais baixinho ainda: — Foi por causa de alguma coisa que eu fiz? A mãe chegou-o a ela e encostou o queixo ao cabelo dele. — Não. Ouve bem: não foi nada que tu fizeste, nem que disseste, nem que pensaste. Morrer não acontece por causa de nós. — E se eu me esquecer da cara dele? — Nós ajudamos-te a lembrar. E podes fazer-me estas perguntas mil vezes, mesmo repetidas. Eu respondo sempre. Depois a mãe disse mais uma coisa, que ficou combinada para sempre: — Quando os bolsos pesarem, vens ter comigo e dizes só: «Mãe, tenho pedras nos bolsos.» E eu venho logo. Simão sentiu os bolsos ficarem um bocadinho mais leves. Não vazios. Mais leves.
07
Ilustração da página 7
O avô continuava morto. Isso não mudou — nem podia mudar. O boné dele continuava pendurado atrás da porta, e ao sábado já ninguém assobiava na rua da Fonte. Mas dentro de Simão houve uma coisa que mudou de lugar. A saudade não ficou mais pequena. Simão é que aprendeu a pegar-lhe. Descobriu que a saudade se carrega como se carrega o pão quente: com a mão por baixo, devagar, com cuidado — porque é preciosa e porque queima um bocadinho.
08
Ilustração da página 8
No sábado seguinte, foi Simão quem acordou a mãe, cedo, quando as portadas ainda estavam fechadas. Desceram a rua da Fonte de mão dada. Na padaria, a senhora Lurdes embrulhou-lhes uma carcaça quente e apertou a mão de Simão sem dizer nada. Sentaram-se no muro, no lugar do costume. — Uma ponta para ti — disse Simão — e uma ponta para mim. Comeram devagar, a ver a rua acordar. Depois Simão desfez a côdea em migalhas e espalhou-as em cima do muro. — Estas são para os melros do avô. Um melro desceu da figueira. Primeiro desconfiado, depois decidido.
09
Ilustração da página 9
Agora é assim todos os sábados. Às vezes Simão vai com a mãe, às vezes com o pai. Às vezes chove, e vão na mesma, de capuz. Na primeira vez que foi com o pai, o pai parou a meio da rua da Fonte. — Aquela noite, ao jantar, fugi à tua pergunta — disse. — Já não fujo. Pergunta outra vez. E Simão perguntou. Há sábados de rir com as histórias do avô e há sábados de chorar um bocadinho para dentro do pão. Os dois valem. Antes de voltarem para casa, Simão tenta sempre o assobio do avô. Ainda lhe sai fininho, cheio de ar, meio torto. Mas o avô dizia que o assobio chega quando tiver de chegar — e Simão sabe esperar. Os sábados não fogem. E agora a saudade tem um sítio onde se sentar: no muro da rua da Fonte, com a mão por baixo do pão quente e uma ponta para cada um.

A atividade desta história

O sábado da ponta do pão

Dá à saudade um sítio e uma hora certos. Quando a criança sabe que ao sábado há lugar para o avô — para as histórias dele, para o pão, até para chorar um bocadinho —, deixa de precisar de segurar a semana inteira sozinha. E o adulto ganha um momento onde falar do avô é natural, não é «ter A Conversa».

O que é preciso

  • Uma ida a pé à padaria (ou o pão feito em casa, nos dias de chuva)
  • Nada mais — as histórias vão na cabeça

Como se faz

  1. 01Escolham juntos o dia. Na história é o sábado; na vossa casa vale outro, desde que seja sempre o mesmo — a repetição é que faz o ritual.
  2. 02No caminho, quem quiser conta uma história do avô. Pode ser grande, pequena ou já mil vezes contada — as repetidas valem a dobrar.
  3. 03A ponta do pão é de quem contou a história. Se ninguém contou, parte-se ao meio e come-se na mesma, sem drama.
  4. 04Há sábados de rir e sábados de chorar um bocadinho para dentro do pão. Os dois contam como sábados bem feitos.

Quando repetir

Todos os sábados, chova ou faça sol — na história vai-se de capuz. Se a criança não quiser falar do avô nesse dia, não se obriga: vão na mesma, em silêncio, e o pão sabe igual. O ritual vale mesmo calado.

Para os dias e semanas seguintes, há mais quatro atividades deste tema no O Kit de Quem Fica.

↑ Reler o guia para o adulto